janeiro 16, 2012
No Fio da Navalha

O meu artigo deste sábado no jornal i.
Pare, escute e olhe
As críticas à ida de Soares dos Santos para a Holanda, só beneficia os culpados da triste situação em que nos encontramos.
A sociedade Fernando Soares dos Santos, detentora da maioria do capital da Jerónimo Martins, decidiu mudar a sede social para a Holanda. De acordo com Alexandre Soares dos Santos, esta decisão deveu-se à instabilidade fiscal em Portugal e às boas condições que a Holanda oferece às empresas. A quem investe, monta um negócio e cria postos de trabalho. Algo a que, descobrimos nos últimos dias, a Holanda dá imenso valor. Algo que, atentas as críticas de tantos comentadores e os boicotes tentados ao Pingo Doce, me leva a concluir que não prezamos muito.
Nos últimos 25 anos, o estado português sobreviveu à custa de um aumento gradual dos impostos e de um endividamento ao exterior que, para ser pago, nos levou às medidas de austeridade que conhecemos. Foram muitos os avisos de que quanto mais o estado exige a quem trabalha, menor é a vontade de trabalhar. É a velha máxima de quanto maior a tributação, menor é a competitividade. Infelizmente nenhum governante se preocupou com esta situação, ou alterou a forma como geria os interesses do país. Porquê? Porque acreditavam no que faziam. Melhor: porque faziam aquilo em que queriam acreditar. Porque queriam que o Estado fosse o motor da economia e que quanto mais este investisse e regulasse a actividade económica, melhor. Melhor para o país, já vimos que não. Mas melhor para o conceito de vida política que impregna o íntimo dos nossos governantes. Os convence do direito de, conquistado o poder político, terem acesso ao poder económico. Distribuir benesses, repartir favores. Serem influentes, não à custa do que conseguiram com o trabalho, mas do dinheiro que cobram aos cidadãos.
O ruído à volta da decisão de Alexandre Soares dos Santos tem sido muito aproveitado pelos políticos de esquerda. Depois de tanta asneira cometida que nos obriga passar pelas dificuldades que conhecemos hoje, não há nada como atirar poeira para cima dos outros. E é aqui que precisamos ter cuidado. Que devemos parar, escutar e olhar com atenção para o que se passa. Para o porquê das coisas. A crítica à mudança da sede de uma sociedade, perfeitamente legal e que já aceitaríamos de bom grado se nos beneficiasse, é irracional e susceptível de ser conduzida por interesses que não nos dizem respeito. Por motivos que apenas interessam a quem tanto nos prejudicou nos últimos anos. Vivemos tempos difíceis com o desemprego, os salários em atraso e as poupanças a serem destruídas. Tempos que vão agudizar ódios e ressentimentos; sentimentos propícios para discursos oportunistas e demagógicos. Próprios de quem instiga a inveja e a animosidade, como forma de justificar o seu discurso ultrapassado e estatizante.
Os políticos que criticam Soares dos Santos são os que andaram de mãos dadas com empresários, orgulhosos por os terem a investir em Portugal. São os que criticam a escolha de Catroga para a EDP, mas esquecem que a única forma de isso não acontecer é o estado sair por completo das empresas. Agora, em que a forma de cativar investimento é reduzindo o poder do estado, estes políticos estão assustados. Assustam-se porque receiam perder influência sobre os escolhidos. Porque a alternativa que sugerem, de impedir decisões como as da deslocação da sede de uma sociedade para o estrangeiro, implica o estabelecimento de um estado policial onde tudo é proibido, desde que não seja em prol do estado. Do poder político, mascarado de patriotismo. Ou já nos esquecemos como nasce o nacionalismo bacoco? Assim, antes de reagirmos a quente, precisamos pensar muito bem nos motivos de quem nos atira poeira para os olhos. Por que o fazem e com que objectivos. Temos de ser mais cuidadosos na análise da informação que nos chega. Na verdade, além de pagarmos impostos, também servimos para pensar.
janeiro 02, 2012
No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste sábado.
A bolha chinesa
Em 2012, podemos assistir ao início do fim do milagre chinês.
Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou ‘Monsoon’ (Random House). Um livro sobre os equilíbrios estratégicos no Oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar, voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar numa potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.
Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.
Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, inevitável quanto mais o estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis, que nunca serão pagas, nem cujas perdas serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio, tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, cerca de 2 a 3 por cento do crescimento económico chinês é excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, de que nada servem, mas que consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam melhor aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam o surgimento da inflação. Gastos supérfluos que estão a criar muitas bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.
Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de incitarem o sentimento nacionalista, tudo controlam, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o estado pouco intervenha, são feitas através de um diálogo diário e silencioso, entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o partido comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga para a frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências, porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.
Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012, a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.
dezembro 19, 2011
No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.
A ferida da Europa
A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal, não há euro que lhe valha.
A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.
George Steiner
Até à segunda guerra mundial, existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como que de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.
Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (A Ideia de Europa - Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local conspirativo, de convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus Judaico, conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça, como sendo algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias tem disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim, é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.
Foi esta diversidade que desapareceu no século XX. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia é mais sobre estados que sobre povos. Um processo que culmina na Segunda Grande Guerra, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje, políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem-no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou. Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.
Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas para os problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo aos homens darem um salto gigantesco no caminho do desenvolvimento humano. Quem sabe, não pode novamente ser esse o papel da Europa. Um espaço de liberdade, de livre circulação de pessoas, bens e serviços; de bem estar, mas também de utilização da herança cultural como modo de contestar o que existe. De reflectir, tornando-nos a todos, dignos de viver.
dezembro 15, 2011
A Inglaterra

A decisão de Cameron vetar a alteração dos tratados europeus terá sido difícil e trará sérios problemas para o Reino Unido. O isolamento britânico vai deixar mossas, até porque o Reino Unido já não é o principal aliado de Washington. Pior ainda: sem o império, a própria existência do Reino Unido, como já tive oportunidade de mencionar aquando das eleições escocesas em 2007, pode deixar de fazer sentido quando a Escócia perceber que o acesso aos mercados internacionais, que procurou em 1707 quando se ‘juntou’ à Inglaterra, será mais fácil dentro da União Europeia, que no próprio Reino Unido.
Os riscos são muitos, pelo que se torna fácil criticar a decisão de Cameron que, aliás, tem muitos críticos no seio do seu próprio país. Sucede que o Parlamento britânico nunca aceitaria submeter-se aos ditames de Berlim, de Paris e da eurocracia não eleita de Bruxelas. Não o fez no passado, não o fará agora. Por muitos que sejam os riscos e as dificuldades. Por muitas que sejam as críticas e apreensões dentro da própria sociedade britânica, elas sempre existiram em situações como a presente. A democracia, a verdadeira democracia parlamentar, quando não é apenas uma palavra, mas um modo de vida, vale por isso e muito mais.
Da mesma forma, Cameron protegeu a praça financeira que é Londres, como no passado a Inglaterra defendeu os seus comerciantes. O poderio inglês, e depois britânico, cresceu com o liberalismo económico que nasceu entre os negociantes e os lojistas. Foram eles que exigiram um Parlamento que os protegesse contra o poder absoluto do rei e o despotismo das potências continentais. Olhando para o passado, facilmente se compreende a decisão de Cameron. E quem não tirar ilações do passado, condenando sem perceber a razão de fundo do governo britânico, acaba por, não querendo ouvir a história, cometer os erros que a história ditou.
dezembro 05, 2011
No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste sábado.
É o fim do mundo como nós o conhecemos
Se o mundo em que nascemos está a acabar, o que decidirmos e fizermos agora vai definir o que deixaremos aos nossos filhos.
No início do século XX, a vida na Europa era um mar de rosas. Ou assim as pessoas na época julgavam, esquecendo os avisos de perigo que se iam repetindo. O equilíbrio de poder europeu perdera elasticidade e a genialidade de Bismarck não era para todos. Até o naufrágio do Titanic, em 1912, foi um aviso: as máquinas não só eram vencíveis, como se podiam virar contra o homem. E assim foi, dois anos depois, quando milhões correram eufóricos em direcção a uma guerra que, cedo se percebeu, não iria ser como as demais. O século XIX, a ingenuidade e candura daqueles tempos terminaram de repente. Há quem diga que a Europa também. E quem observe as fotografias dos soldados naquela primeira grande guerra, o que vê é o olhar da incredulidade. Como foi possível que o progresso os tivessem conduzido até ali?
Não estamos à beira de uma guerra, mas próximos de uma mudança igualmente abrupta. A vida segura e previsível que tivemos até aqui acabou. O conceito de emprego estável e certo não será para nós. O ensino pago por todos e gratuito para quem dele aufere vai deixar de ser possível. Até aquela ideia de que o Ocidente é o centro do mundo pode passar à história, com esta a ser escrita por potências emergentes como China e Índia. O que até há pouquíssimo tempo era inimaginável será amanhã provável. São mudanças que vão ocorrer, não porque queiramos, mas porque têm de acontecer. Por mera necessidade. Foi a necessidade que criou o Estado social, quando as famílias, que tinham muitos filhos, além de sobreviver passaram a exigir melhores condições de vida. É outra vez a necessidade, porque vivemos mais anos e há menos crianças, que porá ponto final no Estado que toma conta de todos. É a necessidade de enfrentar a concorrência vinda de outros continentes que nos está a obrigar a mudar. A ceder às exigências de outros povos e credos. Vivemos tempos interessantes em que o desconhecido se apresenta aos nossos olhos e vemos o equilíbrio que conhecíamos tão bem desmoronar-se. As fundações nas quais os nossos pais (e falo para os leitores de todas as idades) alicerçaram as suas vidas não servirão mais para nós. E daqui a muitos anos, os nossos bisnetos olharão para estes tempos como nós encaramos a linha de fronteira que foi o princípio da I Grande Guerra. O tempo do fim de um século e o início de outro.
Como vai ser o século XXI, ninguém sabe. Mas sabemos os riscos que corremos. Todas as mudanças abruptas trazem insegurança e esta leva à exigência de ordem que, a maioria das vezes, pressupõe restrição das liberdades. Mário Soares, numa entrevista a este jornal, chegou a referir que os Estados soberanos estão a ser substituídos pelos mercados. Sucede que, devido à sua falência financeira, mais Estado implica uma forte desvalorização da moeda e inflação. Ora, se foi a inflação que acabou com as democracias nos anos 30, a proposta de Mário Soares é perigosa. Veja-se a desconfiança que já mina a Europa, como se no Norte todos fossem excelentes trabalhadores e, no Sul, preguiçosos. Estamos a esquecer as particularidades de cada indivíduo e a generalizar conceitos e características, alargando-os a cada povo. Tal como aconteceu no passado. Como vamos evitar a repetição da História? Como vamos lidar com os mais pobres quando o Estado social acabar?
Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz. Se o Estado não pode, fá-lo-emos nós. Os governos devem trabalhar, quanto antes, com as inúmeras organizações de solidariedade, religiosas e laicas, para que estas alarguem o seu campo de acção. Para que grupos criem mais escolas e um espírito de pertença substitua o de colectividade. Menos Estado não é o caos, mas pode ser mais justiça. Porque se estamos a assistir ao fim de um mundo, presenciamos também o nascimento de outro. O nosso.

