maio 08, 2008
Pedro Passos Coelho
A entrevista de Pedro Passos Coelho na SIC-Notícias surpreendeu-me pela positiva. O candidato á liderança do PSD respondeu às perguntas de Ana Lourenço sem se esquivar; respondeu às questões demonstrando saber do que falava e, muito, mas muito importante, apresentou-se com um discurso diferente do que é habitual na direita portuguesa. Um discurso muito próximo do que se tem andado a pedir na blogosfera nos últimos 4/5 anos.
O PSD precisa de credibilidade e esta está toda com Manuel Ferreira Leite. A ex-ministra das finanças é competente; é de confiança e é séria. Nós sabemos ao que ela vem Mas a credibilidade na política não se resume a estes predicados. A credibilidade está muito no sentir das pessoas sobre um determinado candidato. Sobre se esse candidato representa uma mudança efectiva de políticas e se pode ser bem sucedido na sua persecução.
A credibilidade de um político está muito naquilo que ele representa e não só na sua competência. E o que é que Passos Coelho representa? Uma geração que não viveu politicamente o 25 de Abril; que está hoje a atingir o auge da sua capacidade de trabalho; aberta a outras políticas públicas que não apenas as socialistas. Uma geração já não tão marcada pelos traumas dos anos 70. Longe do comunismo, do PREC, de Otelo, das lutas universitárias de então e por aí fora em diante.
Uma das críticas que se faz a Passos Coelho é o ser novo. Mas serão 43/44 serão assim tão insignificantes? O que me assusta nele é o ser uma incógnita. Mas será que deveremos estar sempre tão agarrados à segurança e à certeza? Será que um povo que não sonha e não arrisca merece melhor que aquilo que tem?
maio 07, 2008
Como as grandes superfícies salvaram o comércio tradicional
A possível abertura das grandes superfícies ao Domingo à tarde foi marcada uma vez mais pela polémica. Entre os que a criticam estão os que lamentam a concorrência ao comércio tradicional.
Uma das diferenças entre Lisboa e outras cidades europeias é que, nestas últimas as pessoas fazem muitas compras na rua enquanto por cá se deslocam para os centros comerciais. À primeira vista, concluímos que, enquanto ‘lá fora’ se reconhece e privilegia o comércio tradicional, em Lisboa o mesmo não acontece. Mas há outra diferença muito mais subtil que não podemos menosprezar.
Quem vá ao Colombo e depois circule pelas principais artérias comerciais de Lisboa repara na diferença das lojas. Que estas não as mesmas, nem sequer são iguais. Ao contrário do que sucede em Londres, Paris e Madrid, as grandes cadeias de lojas internacionais instalaram-se nos shopping centres, não invadindo as ruas da cidade, tornando possível a preservação (contrariamente ao que genericamente se passou noutras cidades europeias) do comércio tradicional. Tal aconteceu porque as grandes cadeias internacionais, ao não abrirem lojas na rua, não inflacionaram os preços de arrendamento do espaço comercial. Houve espaço, espaço físico para todo o tipo de comércio.
É assim que cai por terra o argumento que as grandes superfícies concorrem e destroem o comércio tradicional. Tão só porque a realidade nunca é tão líquida e linear como parece ao primeiro olhar. Apesar do que tem sido dito inúmeras vezes, as grandes superfícies não só conseguem coexistir e par a par com o comercio tradicional, como o terá salvo da extinção. É assim o mercado.
maio 05, 2008
O 25 de Abril: ignorância ou preocupação?
O discurso proferido por Cavaco Silva nas comemorações do 25 de Abril, preocupado e entristecido com a ignorância da juventude e o seu afastamento relativamente à política, é bem demonstrativo da angustia que atinge a geração que fez o 25 de Abril. Uma geração angustiada com a crise actual que não é mais que a crise do Estado social.
A geração do 25 Abril pretendeu, na década de 70, aplicar um modelo que tinha sido levado a cabo na Europa nos anos 50/60. Pior: Depois da crise petrolífera de 1973, que destruiu os alicerces do forte crescimento económico europeu do pós-guerra. Este atraso obrigou que o país estivesse sempre numa corrida contra o relógio. Se nos anos 70/80 éramos todos socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos (a explicação da pouca diferença entre estas correntes merece um texto diferenciado), os ventos que sopravam dos EUA e do Reino Unido eram bem mais liberais (ou conservadores, se preferirem). É de bom tom, recordar que a culpa do atraso não se deve a quem fez as reformas posteriores a ’74, mas à ditadura salazarista. Independentemente tudo isso, não deixou de ser um atraso significativo que ainda nos marca.
É assim que o regime que saiu do 25 de Abril é hoje um regime triste, que nos deixa uma herança pesada: Uma constituição socialista e um Estado omnipresente. Omnipresente na lei do arrendamento urbano; na lei laboral; numa conhecida lei do tabaco, que interfere no direito de propriedade; na banca, sendo dono da Caixa Geral de Depósitos; detendo o capital de imensas empresas, como sejam a CP, a ANA, a Carris e a RTP. Mais grave que tudo, um Estado que acredita ser a obra pública o motor da economia, quando a obra pública desenfreada só leva à desigualdade e cria inflação, que é um imposto e, por nunca ser igual nos produtos e variar de lugar para lugar, cria ainda mais desigualdade.
Não deixa de ser irónico que a geração do 25 de Abril, que lutou contra o Estado autoritário, nos esteja a esmagar com um Estado pesado. Tão pesado que uma grande parcela da nossa vida, do tempo dispendido no nosso trabalho seja para o pagar e não para levarmos dinheiro para casa. Na verdade, hoje não temos um Estado autoritário. Temos um Estado esmagador. Um Estado, também ele, e à sua maneira, presente ao virar de cada esquina.
O problema não é que se ignore o 25 de Abril. É a desilusão, o facto de a maioria da população não se rever no regime que saiu daquele dia em 1974. Mais do que agradecidas com os homens pomposos que discursaram no Parlamento, as pessoas estão preocupadas. É este problema, este problema muito concreto que é grave e merece solução atempada.
maio 02, 2008
Hoje na Rádio Europa

Hoje, às 19 horas (com repetição Domingo, às 11 e novamente às 19) a convite de Paulo Pinto Mascarenhas e Antonieta Lopes da Costa estarei no prgrama Descubra as Diferenças da Rádio Europa (90.4 fm) em debate com o Pedro Picoito, com os seguintes temas sobre a mesa:
- A ignorância dos jovens é terrível? No discurso de comemoração do 25 de Abril, o Presidente da República divulgou um estudo que comprova o desinteresse e a ignorância dos mais novos sobre a revolução dos cravos e a política em geral, nacional e internacional, incluindo a Europa. Cavaco Silva afirmou-se espantado ou surpreendido. Há razões para surpresas? E a ignorância - é só dos "jovens" ou é, também, dos seus pais?
- Manuela Ferreira Leite apresentou a sua candidatura à liderança do PSD, entre uma maré de apoiantes na sede do partido, onde se destacavam os principais notáveis, de António Capucho a Pacheco Pereira, passando por José Luís Arnaut e Rui Rio. Mas Alberto João Jardim ainda pode avançar contra as outras cinco candidaturas, onde se destacam as de Pedro Passos Coelho e Santana Lopes. Manuela Ferreira Leite é uma esperança para o PSD? E será que pode bater José Sócrates, em 2009?
- O antigo conselheiro espiritual de Barack Obama, o reverendo Jeremiah Wright, voltou à ribalta esta semana, confirmando algumas das declarações que tinham levado o candidato democrata a afastar-se dele, culpando, entre outras coisas, os "brancos" pela difusão do HIV nas comunidades negras. Depois da vitória na Pensilvânia, Hillary Clinton já aparece como a candidata mais forte dos democratas para bater o republicano John McCain. Obama é um balão que se está a esvaziar?
- Insegurança? Depois de um homem ter sido espancado por um bando de delinquentes, no interior de uma esquadra em Moscavide, onde só se encontrava um agente, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, considerou "desaconselhável" a situação. Rui Pereira diz que não devia haver apenas um agente numa esquadra da PSP e que as esquadras não podem ser um local vulnerável. Uma verdade à La Palisse. Será que não é de exigir, a um ministro, mais do que dizer apenas o óbvio?
"Descubra as Diferenças"… Um programa de opinião livre e contraditório, onde o politicamente correcto é corrido a quatro vozes e nenhuma figura é poupada. No final de cada emissão, fique para ouvir a já clássica "cereja em cima do bolo": uma música, em irónica dedicatória, ao político/figura/situação em destaque na semana.
A ouvir aqui.
abril 28, 2008
Doença social
There are many things to be done to set this nation on the road to recovery, and I do not mean economic recovery alone, but a new independence of spirit and zest for achievement.
Margaret Thatcher, Discurso para a Conferência do Partido Conservador, 10 de Outubro de 1980.
Lembrei-me desta frase de Margaret Thatcher, quando soube da reforma do código laboral que o governo pretende fazer. Também por cá o problema não é apenas económico. É de cariz individual que se caracteriza pela aversão ao risco. Mais ainda, a desconsideração por quem arrisca. À semelhança do que sucedia no Reino Unido nos anos 70, também em Portugal o sinónimo de sucesso profissional é trabalhar no Estado ou numa grande empresa. O emprego como o garante de um estatuto. De uma posição social. Também em Portugal há algo que falta para a recuperação ser completa.
Zest for achievement. O entusiasmo de ser bem sucedido, apesar de tantas vezes perder. De vencer um desafio, apesar de tantas vezes sair derrotado. De fazer por si. Com o seu próprio trabalho, a sua própria realização. Um espírito independente que implica confiança. Uma confiança que implica discernimento. Um discernimento apenas possível quando o Estado não regula tudo, quando deixa espaço à livre iniciativa, não cobra por serviços que os privados podem e anseiam por prestar. Quando não se despreza o lucro, se condena a especulação e menospreza o capitalismo. Se admira quem arrisca; quem cria emprego, por muito insignificante que seja; quem faz contas para pagar salários; procura clientes e honra a palavra dada como sendo a sua imagem de marca. Quem não sabe o dia de amanhã e regressa a casa satisfeito por ser mesmo assim. Quem crê nos seus instintos, confia nos que trabalham consigo, receia e gosta de recear. Quem não sabe viver sem sentir a ‘ bola no estômago’. Admiração por quem quer estar na linha da frente.
Qualidades que o Estado não pode fazer surgir. Estas estão nas pessoas. Pertencem-lhes. Sobra não as impedir, dando margem para que o medo não tolha a acção.
abril 17, 2008
abril 14, 2008
Hoje no Rádio Clube
No seguimento deste texto publicado na semana passada no blogue das Revista Atlântico, estarei hoje no Rádio Clube, no programa 'Janela Aberta', de Ana Sousa Dias, às 18.30.
Podem os católicos ser liberais?
Na semana passada, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa queixou-se que o Governo exclui a presença católica da política. D. José Ortiga, arcebispo de Braga aproveitou para acrescentar que o Estado não deve ser "militantemente ateu". Este assunto, chama à baila um ensaio, escrito por mim e pelo Adolfo Mesquita Nunes, na Revista Atlântico em Maio do ano passado, intitulado ‘Os Católicos e o Estado Laico’.
Nesse artigo, tanto eu como o Adolfo, defendemos que os católicos enfermam de um problema que caracteriza o país: gostam demasiado do Estado e pretendem que este atenda, na medida do possível, os seus pontos de vista. Da mesma forma que os socialistas, os católicos pretenderam fazer valer os seus valores através do poder público. Ao fazê-lo, tornaram-se nuns socialistas que se diferenciam destes apenas por acreditarem em Deus. Dizem-se de direita tão só por serem católicos conservadores, numa distinção política digna do século XIX.
A Igreja deve ser livre de difundir as suas crenças. Não de as impor. Se acha que a visão que tem da sociedade está a ser destruída, deve lutar para fazer valer os seus princípios, em todo o lado, mas nunca utilizando o poder do Estado. A Igreja tem preocupações sociais? Que as resolva, por si, sem esperar apoios e reconhecimento. Pode começar por propor que as suas escolas sejam livres de escolher os programas de ensino que considere mais convenientes. Reconhecendo que as suas escolas são caras, pode sugerir que o Estado deixe o mercado funcionar, permitindo o surgimento de mais escolas privadas, com propinas mais baratas e acessíveis a um maior número de alunos. A Igreja (e os católicos) devem desistir do Estado e recuperar, dessa maneira, a liberdade de escolha. Que cada cidadão tenha mais poder para decidir a sua vida e, dessa forma, não seja ameaçado pelas decisões centralistas de quem é ateu.
abril 08, 2008
Passeio pela Beira

Vila de Avô (Abril de 2008).
Embrulhados que estamos num dia de chuva, nunca é demais recordar como foi no Domingo.
abril 07, 2008
abril 03, 2008
Entretanto, voltamos todos ao mesmo*

Ao ler a crónica de ontem de Rui Tavares, intitulada ‘Entretanto, o tempo mudou’, sobre os malefícios do capitalismo e as benesses de certa regulamentação estatal da economia, lembrei-me do livro ‘The Roman Revolution’ de Ronald Syme. Nesta obra, escrita em 1939 (quando o pensamento fascista ainda vingava na Europa), aquele ilustre historiador, procurou demonstrar terem sido os aspectos nocivos da República que conduziram à ditadura dos Imperadores.
Para Syme, por volta de 60 antes de Cristo, também ‘o tempo mudou’. No seu entender, Roma, parecendo esquecer todo o sucesso dos anos anteriores, fartou-se das guerras civis, da instabilidade, conspirações e preferiu a certeza do homem forte.
O texto de Rui Tavares é um pouco sobre essa mudança de atitude. Claro que não põe em causa a democracia. Isso seria demais. Prefere o ataque à economia de mercado, na medida em que, nela, as decisões são tomadas por uma maioria difusa e irreconhecível de seres humanos que nunca poderemos castigar. À falta de um culpado tangível, critica-se o sistema, apesar dos sucessos dos anos anteriores.
Rui Tavares conclui que o tempo mudou. Não é verdade. O que mudou foi o surgimento da insegurança que conduz à tentação da ordem. Uma ordem que se reconheça, se possa premiar e, mais importante ainda, culpar.
*Publicado no blogue da Revista Atlântico.
abril 02, 2008
Regresso

John Constable, The Hay Wain.
De regresso de Londres, onde revi um dos meus pintores preferidos.
março 28, 2008
Rádio Europa

Hoje, às 19 horas (com repetição Domingo, às 11 e novamente às 19) vou estar na Rádio Europa, no programa ‘Descubra as Diferenças‘, em debate com Bernardo Pires de Lima e a moderação habitual de Antonieta Lopes da Costa. Os assuntos discutidos são:
Violência nas escolas: o vídeo da professora agredida na Escola Carolina Michaëlis, no Porto, por parte de uma aluna que aparentava dar a vida pelo telemóvel, foi, esta semana, incontornável. Terão as reacções sido exageradas? Os problemas vêm, na verdade, de fora da escola, como diz o Governo? Esta é que é a geração Morangos com Açúcar? Bué da fixe...
Fuga de Mel: a Direcção Geral dos Impostos enviou cartas a casais recém-casados exigindo-lhes que denunciassem quem organizou o casamento, prometendo coimas a quem não o fizesse. O Governo já veio dizer que as cartas foram excessivas. A saga da intromissão na vida privada das pessoas continua? Ou trata-se, simplesmente, de mais um saque descarado aos bolsos dos portugueses?
Início de campanha? José Sócrates parece ter começado a dar os primeiros passos para a maratona eleitoral de 2009, e resolveu aproveitar uma sessão de propaganda do PS para atacar os "métodos" do PSD de Luís Filipe Menezes. Tiro no pé? Falta de novas soluções políticas? Movimentações dentro do PS?
Ai, Tibete... os chineses dizem que os tibetanos insurgentes são terroristas e apenas pretendem prejudicar os Jogos Olímpicos de Pequim. O Dalai Lama respondeu não ser verdade, afirmando esperar que os Jogos Olímpicos se realizem em paz. Velhas tensões numa nova China? Serão todos os tibetanos pacifistas?
Debate a 3, esta semana sem Paulo Pinto Mascarenhas, mas com Antonieta Lopes da Costa, Bernardo Pires de Lima e André Abrantes Amaral. descubraasdiferencas@radioeuropa.fm
6ªf, 28 Março- 19h
Domingo, 30 Março- 11h/19h
março 27, 2008
março 26, 2008
Boicote aos Jogos?
Um boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim seria um erro, pois um Estado, como Portugal, que respeita as liberdades, estaria a impedir, em nome dessa mesma liberdade, os atletas a agirem de acordo com a sua consciência.
Perante isto, coloca-se a questão prática de ser preciso proteger os direitos humanos. Mas, se pretendemos ser práticos precisamos também saber responder a esta pergunta: será o boicote eficaz?
Na verdade, a primeira vítima do boicote não será a China, mas os atletas que se prepararam para os jogos. Não será a China, mas a liberdade dos cidadãos agirem de acordo com a sua consciência. Qual a legitimidade de um Estado que, exigindo o respeito pelos direitos humanos, obriga os seus cidadãos a comportarem-se contra os seus interesses e a sua consciência? A prejudicar o seu trabalho. A não considerar o seu esforço.
Se os chefes de Estado ocidentais querem assumir uma posição crítica perante Pequim, os Jogos Olímpicos são uma oportunidade excelente para tal, começando por não comparecer nas cerimónias de abertura e de fecho. Seria algo mais eficaz e mais honesto que um boicote generalizado. Fundamentalmente, mais honesto porque não estariam a fazer figura de santos à custa do sacrifício de quem não tem poder: os atletas.
março 25, 2008
Confiar no mérito
No programa Project Runway, que a SIC Mulher tem transmitido, vários concorrentes têm de superar diferentes provas desenhando e fazendo roupas para mulheres. Numa competição na qual se desenham e fazem vestidos com a facilidade e intuição que eu gostaria de ter na escrita, os 15 concorrentes iniciais vão sendo eliminados até restarem três, que podem participar com uma colecção da sua autoria na semana da moda em Nova Iorque.
Dos três finalistas escolhidos, Chloe é irmã de mais sete raparigas e, juntamente com toda a sua família (10 pessoas, contando pai e mãe) fugiu, em 1979, do Laos, onde se encontrava presa num campo de refugiados. Fugiu para a América e por lá ficou. Chegou aos EUA, como ela disse, ‘com algumas cáries’ e uma enorme vontade de fazer o que gostava: Roupa.
O feito de Chloe, não está apenas em ter vencido o programa (que conta com, entre outros, Michael Kors como júri), mas em, já antes de concorrer, ser dona de uma loja em Houston. Uma loja que vende roupa feita por ela, para uma clientela que quer algo exclusivo mas ainda não muito caro.
O sucesso de Chloe leva-nos à pergunta essencial: Em que outro país uma ex-refugiada consegue adoptar uma nova nacionalidade, abrir uma loja, ter um negocio seu, depender de si própria? No fundo, em que outro local, uma pessoa nas condições de Chloe poderia vencer?
O exemplo desta rapariga leva-nos a concluir que a força que fez a América ser o que é ainda existe: A recompensa do esforço e da abnegação. A ideia de que tudo é possível. Principalmente, quando comparado com Portugal, onde o paternalismo, os ‘contactos’, os ‘conhecimentos’, não são apenas essenciais, mas indispensáveis. Onde tanta gente, percebendo isso mesmo, desiste de fazer os trabalhos de casa e faz-se passar por aquilo que não é. Acabamos por ser um país onde se vende a imagem que cada um gostaria de ter de si próprio e muito raramente o verdadeiro conteúdo.
O preço a pagar é muito caro. Consiste em viciar o mérito: Muitos dos que sobem não estão à altura do posto, razão pela qual somos um país de decisões adiadas; some-se ainda que quem quer subir percebe, desde cedo, qual o melhor caminho a percorrer.
março 19, 2008
Um livro de dor

Recensão publicada na edição de Fevereiro 2008 da Revista Atlântico.
Qual seria a nossa reacção imediata se Adolfo Hitler aparecesse à porta da nossa sala? Levantar-nos-íamos? É a pergunta que Gervinus Rothling, antigo oficial alemão, faz à sua filha, já na década de setenta, quando se ouvem rumores que os israelitas capturaram o ditador alemão em plena selva amazónica. Será que nos levantávamos? A nossa reacção, a reacção de qualquer humano perante o horror, o ódio, o diabo em pessoa é a pergunta fulcral deste pequeno livro de George Steiner.
A obra deste professor de Literatura, datada de 1979 e republicada em português pela Gradiva, deu polémica na época. Um Hitler velho, muito velho, com mais de noventa anos, é apanhado na Amazónia, no meio da selva, da lama, dos insectos, num lugar quente, húmido, empestado de mosquitos, isolado do mundo, longe de tudo. Um Hitler que apenas espera morrer, que é encontrado, que é transportado para San Cristóbal, a terra mais próxima onde um avião o espera para o largar em Israel.
À medida que os rumores da captura se espalham, a dúvida do que fazer com o monstro surge nos meandros do poder das grandes potências. O assunto é uma pedra no sapato para os soviéticos que tinham garantido o óbito, delicado para franceses, norte-americanos e ingleses, preocupante para alemães e ansiosamente aguardado pelos israelitas. Quem se levanta? Ninguém sabe, mas todos se preparam, enquanto meia dúzia de judeus, embrenhados na selva até ao pescoço, transportam o fuhrer.
Transportam-no e também não sabem o que fazer com a presa. Duvidam, não o olham, com medo de ver nele, não o diabo, mas alguém. ‘O cheiro de um homem pode partir o coração’ (p.54). Contêm-se. Fecham os olhos, concentram-se na missão até que o peso do mundo, do mundo real (p. 202), se abate sobre eles e eles vacilam, decidindo julgar Hilter ali, no meio da selva. Ouvi-lo.
É quando um escritor judeu decide dar voz ao velho déspota que começa a polémica. Vocês não são a consciência dos homens, Judeus. Vocês são a sua má consciência (pág. 215); Fui beber as minhas doutrinas a vocês (p. 219); Quem, então, foi o maior destruidor, quem possuiu uma avidez de sangue mais implacável? Estaline ou eu? (pág. 217). Porquê dar voz ao tirano? O que explica esta afronta do autor?
Porque ‘O mundo em geral foi cúmplice instrumental da “Solução Final”, explica-se Steiner, no posfácio datado de 1999 e publicado nesta edição (p. 223). O Holocausto não foi obra de um só, mas de muitos, pois apenas dessa forma o extermínio foi possível. Esta obra ‘é uma parábola sobre a dor’ (p. 226). A dor que advém da maldade humana. A dor de quem se recorda que o mal foi criado, não por um monstro, mas por homens.
O Transporte para San Cristobal de A.H., por George Steiner.
Gradiva, 2007, pp. 226.









