maio 14, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Sem Alemanha não há Europa

A alternativa à austeridade é a redução do peso do Estado ou um empobrecimento suave conseguido com a inflação. Estará Hollande disposto a tanto?

A vitória de François Hollande no último fim-de-semana está a ser analisada como um chumbo da França à política de austeridade de Angela Merkel. De acordo com os socialistas franceses e seus congéneres portugueses, a austeridade não chega e deve ser substituída por uma política de incentivo ao crescimento económico. Infelizmente, tal só se consegue de duas formas: ou reduzimos a despesa do Estado e descemos os impostos ao mesmo tempo que pagamos a dívida, ou carregamos no investimento público e o Estado volta a contratar pessoas e a pagar ordenados por inteiro. Ora se Hollande prefere a segunda solução como é que vai investir na economia se os estados estão endividados e o dinheiro lhes é emprestado a taxas de juros incomportáveis? Só há uma maneira: através da inflação e desvalorizando a moeda, pondo o BCE a emprestar dinheiro directamente aos estados, a um preço muito inferior ao praticado no mercado livre. No fundo, é levar à prática o que Paul Krugman anda a dizer há anos. Com esta solução, não só a dívida se reduz, porque vale menos, como os produtos ficam mais baratos e a inflação, num nível inicial, nos obriga a consumir. Com mais moeda a circular, achamos que temos mais dinheiro, que estamos melhor, apesar de mais pobres. É a receita do empobrecimento indolor que foi aplicada em Portugal, com o Bloco Central, em 1983. A receita que permitirá ao Estado continuar a gastar sem que os governos tenham de encetar as conhecidas reformas estruturais na lei laboral, na política fiscal e na redução do peso do Estado na economia. As medidas impopulares que tanto medo metem a quem está na política, mas que são as únicas capazes de levar ao crescimento da economia sem que se aplique, em cima de nós, um imposto disfarçado de correcção monetária e de inflação. Se o BCE emprestar dinheiro aos estados, o cidadão comum continua a não escapar à austeridade. Perde na mesma o seu dinheiro, com a diferença de que não sente. E porque não sente, os governos estão certos de que o convencem do quer que seja.

Não é difícil perceber por que motivo a solução de Hollande não agrada à Alemanha, que não precisa de desvalorizar a sua moeda para vender mais. Aquando da criação do euro, o governo e os sindicatos alemães acordaram, ao contrário do que sucedeu nos países do Sul da Europa, não subir os salários para níveis superiores ao da inflação. O custo do trabalho manteve-se baixo e a produção alta. Por isso os alemães não querem agora pagar a nossa dívida, que resulta de salários muito acima do valor que produzimos. Para piorar as coisas, a divisão entre a Alemanha e os países do Sul não se reduz a uma diferente perspectiva do problema. O grande dilema é o quanto a economia alemã se afastou da europeia. Conforme a BBC noticiou o mês passado, as exportações germânicas cresceram 3,4% em Janeiro e 1,6% em Fevereiro deste ano. Só em 2011, as vendas de produtos alemães ao estrangeiro aumentaram 13,2%, naquele que foi o melhor ano de sempre da indústria germânica, que vende cada vez mais para fora do mercado europeu. Números que contrariam quem diz que a Alemanha precisa da Europa para vender os seus produtos e que a austeridade serve apenas para manter o domínio alemão sobre o Velho Continente.

A maneira como Hollande vai lidar com este afastamento alemão é a grande incógnita dos próximos meses. Se o novo presidente francês quiser a dita solução do empobrecimento sem dor, esta será de uma injustiça comparável à da imposição à Alemanha da Paz de Versalhes, em 1919. Sucede que, ao contrário de então, os alemães não têm agora razões para ficar mais pobres. Da mesma forma que o projecto europeu surgiu para integrar a Alemanha na Europa, a penalização deste país pode ditar o fim da mesma Europa. Aquilo com que os políticos europeus se vão confrontar é saber se é possível salvar o Estado social europeu à custa da Alemanha, quando os dois estão intimamente ligados.

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maio 07, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

No país dos sovietes

A promoção do Pingo Doce no dia do Trabalhador foi uma dura resposta aos que exigiram um boicote àquela cadeia de supermercados.

Se não foi de propósito, merecia que tivesse sido. Merecíamos todos. Uns, porque se sentiram aliviados ao saber que ainda existe quem afronte o poder do Estado. Outros, porque levaram com a resposta que há tantos anos andavam a pedir. A promoção que o Pingo Doce ofereceu aos seus clientes no passado 1º de Maio não se trata apenas de uma desforra face aos apelos ao boicote àquela cadeia de supermercados, vindos dos que invocaram, em nome do país, interesses corporativos e particulares. É um pequeno ajuste de contas por tudo o que tem sido feito em detrimento do país, das nossas vidas, dos nossos negócios e da nossa esperança.

Durante anos, o país deixou-se levar por discursos de frases feitas e sentido nenhum que nos diziam ser importante regulamentar a lei laboral, impedir o despedimento, garantir o emprego na função pública, taxar o trabalho e o lucro, aumentar os encargos sobre os que criavam empresas e negócios e eram ambiciosos. Ganhar dinheiro só era positivo porque parte dele era encaminhado para os cofres do Estado. Trabalhámos não para nós, mas para todos nós. Para que o Estado tivesse dinheiro e os iluminados pela luz do poder o pudessem gastar a seu bel-prazer.

Esta catástrofe, que já dura há tantas décadas, ainda não terminou, mas recebeu no dia 1 de Maio um primeiro sinal de que o seu fim pode não estar longe. Há uma letargia que nos consome, que não permite à economia crescer, que nos fez aceitar como bons os milhões de euros gastos em investimentos públicos e que tem destruído os postos de trabalho. Aliás, o desemprego só não atingiu mais cedo as proporções de hoje porque a emigração não é de agora. Começou há cerca de dez anos, quando os primeiros sentiram os sinais de uma economia estagnada, sem futuro. Que algo não estava certo e que o desastre aguardava uma primeira oportunidade para se fazer sentir. Enquanto tal não sucedeu, a apatia que a lengalenga socialista provocou permitiu que a grande maioria se endividasse na compra de uma casa para viver, sem que ninguém tivesse a coragem de liberalizar a lei do arrendamento e facilitar a vida das pessoas. Que a justiça deixasse de funcionar a tempo e horas, e ninguém tenha sido capaz, ou saiba sequer, como resolver o problema. Permitiu-nos chegar a um ponto em que o Estado já nem as suas funções essenciais cumpre de forma digna. Andámos a cavar um buraco procurando uma saída do outro lado. As pás, essas, foram-nos dadas, entre sorrisos e promessas, pelos verdadeiros coveiros do Estado social.

O que sucedeu com a promoção do Pingo Doce é um exemplo do que deve ser feito para sairmos do buraco onde nos encontramos. É preciso confrontar a irracionalidade daqueles que, cheios de ideais, destroem as nossas vidas. Expô-los publicamente ao ridículo. Fazer com que se veja o que defendem e aquilo que pretendem. Pô-los a exigir que o Estado, reduzido que está a servi-los, impeça quem queira ou precise de ter acesso a produtos mais baratos. Fazê--los proclamar não ser justo baixar os preços, mesmo que isso seja do proveito da maioria das pessoas e, mais importante que qualquer outro argumento, apenas a elas diga respeito.

A ânsia que alguns poderes instalados no Estado têm de entrar nas nossas vidas e decidir, em nosso nome, o que é melhor para nós é um vício que atingiu os limites da falta de decoro. Veja-se o Partido Socialista, que exigiu à ASAE que investigue se houve concorrência desleal na promoção do Pingo Doce, não vá o país ter perdido com um benefício pontual concedido aos consumidores. Que a ASAE, um organismo público controlado não sabemos por quem, com ligações não sabemos a que poderes, uma entidade de quem, ao contrário do que sucede com qualquer supermercado, não podemos fugir, possa investigar o que quer que seja é, isso sim, um verdadeiro exemplo do que em Portugal, e fazendo minhas as palavras do líder da CGTP, precisa de ser posto no lugar.

Publicado por André Abrantes Amaral em 10:32 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 30, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Liberdade

A liberdade também implica um Estado que gaste menos e não cobre tantos impostos.

Com o passar de mais um 25 de Abril, voltámos a ouvir que os portugueses não devem tolerar mais cortes nas ajudas, nos subsídios e na gratuitidade universal dos serviços do Estado. A austeridade está a acabar com a convicção de que o Estado é um poço sem fundo e que todos temos direito a tudo. Que fomos feitos para receber. De onde, de quem, pouco interessa, desde que o intermediário seja o Estado e ele trate disso por nós. Delegámos nele o jogo sujo de arranjar receitas de qualquer maneira. Se com mais impostos, taxas de juros mais baixas ou até com o fabrico, pelo Banco Central Europeu, de mais dinheiro, pouco importa. Desde que chegue ao nosso bolso. Foi assim que assumimos a pose de pessoas de bem e generosas. Uma generosidade imposta a todos, dispersa entre cada um de nós e, por isso, sentida por ninguém.

Esta posição é vergonhosa e indigna de ser decretada à conta do 25 de Abril. A revolução dos cravos visou pôr termo à guerra do ultramar, que destruía a vida de milhares de jovens, e pretendeu estabelecer uma democracia em Portugal. Que pudéssemos votar, ter opiniões contrárias à do governo e acesso a uma informação livre e imparcial. Comparar estes objectivos, dignos e gratificantes para quem a eles se propôs e por eles se bateu, com a mera exigência de mais direitos, à custa do esforço de outros, é um insulto. No entanto, há quem faça precisamente isso: exija do Estado a prestação de múltiplos serviços, alegando um direito baseado na mera existência. Existo, logo exijo. Foi para um país de cidadãos de mão estendida que se fez o 25 de Abril? Terá sido para esta falta de brio que saltámos de uma ditadura para uma democracia? Não me parece. Foi para quê, então?

Acima de tudo, pela liberdade. Não só de votarmos, mas de, através do voto, procurarmos soluções para os problemas e, dessa forma, vivermos melhor. De não ficarmos presos às decisões tomadas há 38 anos, mas conseguirmos decidir de acordo com as necessidades e as vontades de hoje. Por isso, além da escolha de um governo, a liberdade implica viver e decidir sobre os problemas que afectam a vida de cada um de nós, sem a interferência de terceiros. Esta liberdade, que Isaiah Berlin definiu como negativa, é aquela que devemos aprofundar em cada dia que passa das nossas vidas. Trata-se de um processo quase tão difícil quanto planear e levar a cabo uma revolução. Consiste num esforço diário, dissolve-se se não constar de uma prática habitual, implica uma vigilância constante da nossa parte. Obriga-nos a melhorar e a escolhermos o caminho mais difícil: o de assumirmos a responsabilidade das nossas vidas, de forma a não sermos um peso para os demais. E se tomarmos consciência da dimensão desta empreitada, reparamos que é um dever o que se nos impõe: sermos individualmente livres de forma que os outros também o possam ser. Se não o fizermos, a liberdade de que tanto se fala nestes dias será oca e pouco significado terá. Serão livres os que esperam e não os que procuram. A liberdade desaparecerá à primeira dificuldade e será trocada pelo que se apelida de segurança. Como se esta fosse possível sem que se respeite a vontade e os desejos de terceiros.

O apreço pelo trabalho do outro implica um esforço suplementar da nossa parte. O direito ao ensino e ao trabalho não pressupõe que estes nos sejam concedidos, mas que possamos lutar por eles. Da mesma forma, a gratuitidade de prestações sociais a quem as pode pagar, porque implicam um ónus sobre o trabalho dos restantes cidadãos, são uma farpa na sua liberdade individual. Na liberdade de trabalhar e usufruir, o máximo possível, dos seus rendimentos. Quanto mais subsídios recebemos, mais impostos pagamos e menos livres somos. Só uma sociedade respeitadora desta liberdade tem condições de ajudar quem precisa, os verdadeiros pobres, e não os que, em seu nome, se arrogam o direito de receber. É assim que a liberdade dos solidários passa mais por prescindir do que por impor obrigações.

Publicado por André Abrantes Amaral em 10:35 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 26, 2012

Lefranc - 60 anos

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No ano em que a personagem de Jacques Martin faz 60 anos,o último álbum, desenhado por Régric, já está à venda.

Publicado por André Abrantes Amaral em 10:31 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 23, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Décroissance

A extrema-esquerda, que tem defendido uma redução da actividade económica para mudar o nosso modo de vida, devia estar satisfeita com esta crise.

Há um ano, o governo de Zapatero baixou o limite de velocidade nas auto- -estradas de 120 para 110 km/h. A ideia procurava reduzir o consumo de combustível, devido ao aumento do preço do petróleo que, na altura, atingia os 120 dólares por barril. Procurava também reduzir as emissões de carbono para a atmosfera e, dessa forma, proteger o planeta. Como é natural, esta imposição não teve sucesso. Ninguém cumpriu o limite imposto, tal como não houve qualquer redução no consumo dos combustíveis. Em Portugal, ainda se pensou fazer o mesmo, mas não foi necessário. A recessão económica chegou e fez o que faltava. De acordo com a Direcção-Geral de Energia e Geologia, o consumo de combustíveis está em queda desde Abril de 2011. Em Outubro último, o consumo de gasolina terá caído 8,1%, e o do gasóleo 3,4%. No início deste mês foi anunciada uma quebra de 47 milhões de litros de combustível vendidos. São cada vez menos os que andam de automóvel. E cada vez mais os que cumprem os limites de velocidade, por forma a pouparem combustível, e ainda os que preferem as estradas nacionais às auto-estradas, evitando as portagens. Estas notícias têm sido encaradas como inquietantes. Mas não foram estes os resultados que tantos queriam conseguir por força da lei? Menos carros, menos poluição, menor dependência do petróleo. O que a força não impôs, conseguiu-o a realidade.

O mesmo aconteceu com a construção civil. Lembra-se o leitor dos “patos bravos” de que o país estava cheio? A chatice que era construírem-se prédios em todo o lado, quando nenhuma colina verde escapava à fúria do betão? De acordo com os últimos dados, o sector da construção e do imobiliário vai perder 12 mil empresas só neste ano de 2012. O país dos “patos bravos” acabou, e com eles a construção desenfreada. Para quê então as notícias alarmantes sobre o assunto, agora que a economia está a ir ao encontro dos desejos de alguns que, sabemos agora, não sabiam bem o que significava aquilo que queriam? Os adeptos da teoria da décroissance, tão em voga entre certos sectores intelectuais da esquerda francesa e com forte influência na extrema-esquerda portuguesa, estão a ter o que sempre desejaram: menos consumo, menos poluição, menos construção. Se assim é, para quê então tanta crítica? Para quê os incentivos à revolta e o apelo à rua?

Apesar dos protestos, a extrema-esquerda sabe que o que sempre defendeu está a acontecer: a falência de um modo de vida que tem criticado ao longo dos últimos anos. Há nisto uma forte ironia que se traduz num círculo demasiado vicioso: o protesto contra um modo de vida que permitia à extrema-esquerda ser o que é, e que uma vez em causa a obriga a lutar para tudo volte ao que era, ao que nunca quis. Complicado? Não tanto, se considerarmos a extrema-esquerda como um grupo político, não de mero protesto, mas que visa sujeitar as nossas vidas à vontade do Estado. Que pretende impor-nos comportamentos, por muito simples que estes sejam, mas que já não os aceita quando advêm do nosso livre arbítrio. Por isso, circular a 110 km porque a lei nos diz para o fazer é bom, mas andar mais devagar para poupar gasolina já é uma consequência opressiva da austeridade. Poupar na electricidade para salvar a Terra é positivo, mas se devido à nossa escolha racional enquanto consumidores é de rejeitar. Como a maioria das nossas decisões enquanto homens livres: a escolha de uma escola para os nossos filhos, a prática de uma religião que nos torne conscientemente livres do arbítrio do poder político ou a liberdade de gastarmos o nosso dinheiro como quisermos. Aquilo porque se bate a extrema-esquerda não é a resolução dos nossos problemas, mas saber como determinar as nossas decisões. Fazer de nós, indivíduos e famílias, parte integrante de um todo estatal. Mesmo que isso implique o recurso à força e à violência na rua.

Publicado por André Abrantes Amaral em 10:56 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 20, 2012

Partida

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Boys on the Beach, Winslow Homer.

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abril 17, 2012

abril 16, 2012

Prós e Contras

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Irei estar hoje na RTP1, no programa Prós e Contras, às 22.30. O tema é o fim do estado social, as reformas em risco e as alternativas para o país e para a Europa.

Publicado por André Abrantes Amaral em 03:19 PM | suas observações (0) | TrackBack (0)

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Titanic

Recordar o naufrágio do Titanic é homenagear as vítimas daquela que terá sido a primeira das muitas catástrofes do século xx

Em “À Procura de Sir Malcolm” (Meribérica), Jean Claude Floc’h e François Rivière falam-nos da dolorosa recordação que Francis Albany tem da viagem feita, quando criança e com os pais, a bordo do Titanic. O que se conta é muito mais que a história real do Titanic, cujo naufrágio serve de pano de fundo a uma intriga belíssima, com desenhos dignos da linha clara da banda desenhada franco-belga. Mas está lá tudo: o embarque, o fascínio de um grande navio, a travessia do Atlântico, o ambiente que uma viagem daquelas pressupunha e, claro está, os icebergues. O terror, o choque, o pasmo e o silêncio que se abateu sobre aquela gente num espaço de pouco mais de duas horas. Tudo aconteceu faz esta noite 100 anos.

O interessante no Titanic não é apenas o aviso simbólico do fim de uma época, que terminaria em 1914. É um acontecimento impressionante que, de tantas vezes estudado e contado, se tornou um momento de paragem na história, num seu ponto de referência. Assim sendo, e na medida em que a percepção que cada um tem do que seja justo e injusto, certo e errado, do que espera e deseja da vida, muda, mesmo que não de forma essencial, com os tempos, percebemos como os que estavam no Titanic foram dos primeiros que pensavam como nós. No meio da evolução intelectual, de valores e sentimentos, aqueles homens e mulheres foram os primeiros do século xx com as vidas registadas ao pormenor. Sabemos quase tudo o que se passou naquela noite. Se lermos o que deles se diz concluímos que nos revemos no que eram e naquilo em que se queriam tornar. Alguns dos que sobreviveram chegaram às décadas de 70 e 80. Deram o seu testemunho e viveram a nossa época. Contrariamente ao cidadão comum do século xviii, que é para nós um estranho, que ainda não conhecia a democracia, o conceito das liberdades e o liberalismo, os que viviam há um século tinham o nosso código de valores. Foram pessoas por quem sentimos empatia e de quem nos sentimos cúmplices.

Isidor Straus era um norte-americano de origem germânica, dono dos armazéns Macy’s em Nova Iorque. Ele e a mulher, Isadore, iam para os EUA, vindos da Alemanha. Ao contrário do habitual, não viajaram num barco alemão. Embarcaram no Titanic em Southampton, Inglaterra, rumo à América. Dois anos depois este mundo estava em guerra. Algo inimaginável para este casal sexagenário que se sentiria em casa no século xxi. Depois do choque com o icebergue e de se ter percebido que os botes de salvamento não chegavam para todos, Isidor recusou--se a ocupar um lugar, preferindo deixá-lo aos mais novos. A sua mulher não aceitou afastar-se dele. De acordo com os testemunhos, terá dito que da mesma forma que viveram juntos juntos morreriam. Perante esta decisão, Isidor ordenou à empregada da sua mulher que embarcasse. O que Ellen Bird fez e lhe permitiu viver até 1949. Houve outros actos heróicos, muitos desconhecidos, mas todos praticados por homens e mulheres sem treino militar, com amor à vida, alguns ricos, outros pobres, todos a sonhar com a vida que tinham pela frente. Homens e mulheres que aceitaram o inevitável quando, pouco tempo antes, tudo era expectativa e promessa de bem estar.

Se há um momento semelhante a este, terá ele ocorrido a 11 de Setembro de 2001. Também aí, e ainda hoje, vamos conhecendo actos heróicos e generosos de pessoas comuns. Talvez daqui a 90 anos alguém ainda lhes reserve uma crónica num jornal. O importante é a percepção do choque que deve ter sido idêntico para nós, que assistimos à queda das torres em directo na televisão, e para os que souberam do naufrágio do Titanic nos dias seguintes pelos jornais. O mesmo sentimento de impotência e de incompreensão. O mesmo assombro. A mesma aceitação. A história conta-nos que o mar estava calmo, não havia luar nem nuvens. O céu estava estrelado. Vinte minutos depois de o Titanic ter submergido, os gritos dos que caíram à água terminaram. O silêncio imperou de então para cá, faz esta noite 100 anos.

Publicado por André Abrantes Amaral em 11:28 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 12, 2012

Carácter

Let me give you a tip on a clue to men's characters: the man who damns money has obtained it dishonorably; the men who respects it has earned it.

Ayn Rand, Atlas Shrugged, p. 412.

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abril 09, 2012

No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana de Páscoa.

Ressurreição

Mais difícil que dar a alma por algo, é guardá-la. A Páscoa é também a festa do renascimento da vontade humana e das suas capacidades.

To sell your soul is the easiest thing in the world. If I asked you to keep your soul – would you understand why that’s much harder?

Ayn Rand, The Fountainhead.

Ayn Rand foi uma filósofa e escritora norte-americana, autora de diversos livros, dos quais os mais conhecidos são “Atlas Shrugged” e “The Fountainhead”. Neste último, Rand conta-nos a vida de Howard Roark, um arquitecto genialmente criativo, que adora o seu trabalho e não se rende ao que pelos outros foi convencionado como devia ser a arquitectura. Nem se deixa aliciar pela consagração fácil e rápida dos que trocam a realização pessoal pelo prestígio e uma vida fácil. Roark chegará a ter dinheiro, até um grande atelier, mas este pouco mais é para ele que o resultado do trabalho, uma forma de ser independente e não se sujeitar a quem quer que seja. O que gera a incompreensão dos seus colegas é o não compreenderem porque Roark não escolhe o caminho mais rápido para o sucesso. O não entenderem que para ele, o êxito é, não o reconhecimento social, mas estar liberto dos condicionalismos que tolhem o processo criativo. São muitos os que o receiam porque não valorizam o que apenas alguns conseguem almejar. Por não conseguirem conviver com alguém que busca o que para tantos nem sequer é um sonho. E não suportam o seu silêncio, o facto de não fazer sugestões, de não perder tempo a comentar as decisões dos outros. Não o faz, da mesma forma que agradece que não o façam consigo. Não o faz porque pressupõe que cada um procure viver da forma que lhe agrada, não imaginando que alguém troque a sua realização pessoal pelo reconhecimento alheio. Ou melhor: que alguém se realize por ser o que os outros desejam que seja. Que alguém deixe de ser quem é, desista da sua individualidade, da sua essência, natureza, para agradar a terceiros. A atitude de Roark, que muitos apelidam de egoísta, é tremendamente cristã. E é por essa razão que trago hoje, para este jornal e na Páscoa, a sua história.

Se houve mensagem que Cristo deixou foi a de não julgarmos os outros e não sermos escravos dos bens materiais. A concepção do indivíduo como algo sagrado, porque criado à imagem e semelhança de Deus; a imoralidade que é destrui-lo, não o deixar singrar na vida, ou pior, destruir-se em nome dos outros. A ilusão que é explicar os nossos fracassos, falhas, com os erros alheios. Culpabilizá-los pelo que fizemos e somos. Não assumirmos a responsabilidade de sermos aqueles em quem nos transformámos, porque nem sempre quisemos ser aquilo em que nos poderíamos tornar. O dever de não trocarmos a nossa realização pessoal pela busca do bem estar material, como sinal de afirmação na sociedade. E se encararmos a questão por este prisma, o altruísmo não será prescindirmos de nós em nome dos outros, mas fazermos o nosso melhor. A procura da felicidade torna-se um direito inalienável e a entrega já não será irmos contra a nossa vontade, mas usá-la para algo que nos deixe intimamente felizes. Porque só alguém feliz, realizado por fazer o que gosta, ou por lutar por fazer o que gosta, cumpre o papel divino que lhe foi destinado e é uma referência para quem lhe preste a devida atenção.

Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, nada é mais valioso que a vida humana. Uma vida que só se dignifica com trabalho, independência e em liberdade, com a obrigação de fazermos o melhor, mesmo que desagrade a terceiros. De subirmos a parada dos nossos feitos. Assim sendo, a virtude medir-se-á não pelo que fazemos pelos outros, mas pelo que fazemos por nós. Se acreditarmos nas nossas capacidades, sem termos de pedir ajuda a quem quer que seja, encontramos a razão de ser da nossa existência e confiamos também na dos demais. Se tentamos, eles também podem tentar. O respeito pelo outro passa por este ponto tantas vezes esquecido que é não prescindirmos de nós e seguirmos com a nossa vida. O não nos deixarmos prender pela convenção aparente de entregar a nossa essência por algo que nos seja alheio.

Publicado por André Abrantes Amaral em 09:28 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

abril 02, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O clima e a nossa responsabilidade

Enquanto os crédulos acreditam que o clima não muda, os oportunistas utilizam esse facto para fazer valer os seus projectos políticos.

Como não choveu no Inverno são muitas as referências ao aquecimento global, às secas que aí virão e à culpa do homem, que é imensa. Infelizmente, a memória é curta. Caso contrário, recordaríamos as chuvas do ano passado, bem como o Verão, que não foi o primeiro a ser fraco. Também não esqueceríamos como o Inverno deste ano foi rigoroso na Europa, enquanto cá não chovia. Como não choveu noutros Invernos, conforme também bem sabemos, se não quisermos ter memória curta. Mas o tema deste artigo não são as alterações climáticas, mas a responsabilidade do homem como sua causa principal, que tantos tomam por certa e que alguns pretendem usar para ditar políticas restritivas das liberdades individuais.

Em Janeiro de 2011, a “Swiss Federal Research Institute for Forest, Snow and Landscape” anunciou os resultados de um estudo baseado na observação dos anéis de mais de 7200 fósseis de árvores dos últimos 2500 anos, na Alemanha, em França, em Itália e na Áustria. Medindo a largura dos anéis das madeiras foi possível determinar as temperaturas e os níveis de precipitação numa base quase anual. E o que se comprovou foi algo que já se sabia: o clima sempre mudou e as suas fortes alterações terão até influenciado a história da Europa. Os Verões húmidos e quentes coincidiram com as épocas de expansão, enquanto os secos e frios ocorreram nos períodos de crise, como sejam a decadência do Império Romano e as migrações que forçaram a sua queda, a Peste Negra, em meados do século xiv e a Guerra dos Trinta Anos, na primeira metade do século xvii. O que para aqui interessa são as alterações climáticas que foram ocorrendo durante estes dois mil e quinhentos anos. Períodos prolongados de seca, a par de outros frios (que gelaram o Tamisa no Inverno de 1683-84), em contraponto com épocas quentes e chuvosas, que marcaram por exemplo o século xv, coincidentes com a expansão portuguesa e o início do Renascimento. Como se vê, um fenómeno constante e, julgo não estar errado, em nada resultante da actividade poluidora do homem.

Porque é aqui que bate o ponto: na responsabilidade humana. Do comportamento do homem que criou a sociedade industrializada, de serviços e consumista que permitiu o maior desenvolvimento jamais visto na qualidade de vida das pessoas. A atribuição de um sentimento de culpa por algo que tem sido positivo e que nos tem permitido viver melhor, saber e questionar mais, não aceitando de forma gratuita as imposições dos governantes e dos poderosos. Não deixa de ser interessante que seja entre a classe política e os que aplaudem o poder omnipresente do Estado que se encontrem os principais defensores da culpa do homem por algo tão natural e recorrente como as alterações do clima na Terra.

Há dois aspectos que nos devem chamar a atenção. O primeiro é o critério científico colado à tese da responsabilidade do homem quando a ciência se baseia, como nos disse Karl Popper, no confronto entre posições opostas e não na imposição de uma teoria como absoluta. Sendo a ciência a base de investigação por excelência, qualquer utilização da mesma para impor respostas definitivas devia ser uma afronta à nossa inteligência. O segundo é a humildade. Esta é utilizada pelos que culpabilizam o homem pelas alterações climáticas, alegando que se formos humildes percebemos que temos de mudar a nossa vida e não ferir o planeta. Mas se encararmos o fenómeno por outro prisma, se entendermos que as alterações climáticas são naturais, inevitáveis e independentes da actividade humana, nesse caso a humildade será aceitarmos que o homem é insignificante perante as alterações naturais do clima e que pouco ou nada pode fazer para as evitar, que não seja adaptar-se como sempre fez. Talvez parte daquilo a que assistimos não seja ao fim da vida na Terra, mas da crença de que o homem é omnipotente e tudo pode. Até impedir as mudanças no clima, que, por serem naturais, se tornam indispensáveis ao equilíbrio do planeta.

Publicado por André Abrantes Amaral em 10:21 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)

março 30, 2012

Virtude

Money is the barometer of a society’s virtue. When you see that trading is done, not by consent, but by compulsion – when you see that in order to produce, you need to obtain permission from men who produce nothing – when you see that money is following to those who deal, not in goods, but in favors – when you see that men get richer by graft and by pull than by work, and your laws don’t protect you against them, but protect them against you – when you see corruption being rewarded and honesty becoming a self-sacrifice – you may know that your society is doomed.

Ayn Rand, Atlas Shrugged, p. 413.

Passos Coelho quer uma sociedade mais dinâmica, com menos estado e, naturalmente, mais justa. O texto em cima ajuda-nos a perceber como a nossa sociedade não é virtuosa. Ajudar-nos-á a saber, dentro de anos, se Passos Coelho foi bem sucedido. Mas, acima de tudo, pode servir de referência quanto ao caminho que devemos trilhar. Menos estado, não significa apenas mais riqueza, mas também menos corrupção e menos favorecimento político. Mais trabalho e mais transparência.

Publicado por André Abrantes Amaral em 03:13 PM | suas observações (0) | TrackBack (0)

março 26, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A crítica certeira

Devemos centrar as nossas críticas não nos que ganham dinheiro mas nos que vivem dos fundos públicos.

Quem acompanhe o processo eleitoral para a presidência dos EUA percebe o quanto este está marcado por um preconceito contra a riqueza, até há poucos anos impensável na América. Ser rico é um problema para quem queira ser político nos EUA e está a criar sérias dificuldades a Mitt Romney, o mais provável candidato republicano a correr contra Barack Obama. É fácil prever Obama a colar Romney à imagem de homem rico; uma riqueza de origem dúbia e, na melhor das hipóteses, desconhecida. Algo contrário à própria representação de Obama, nascido numa família sem posses, mas que estudou e chegou onde chegou. Claro que Obama tem mérito. O problema é que Romney também o tem, apesar dos esforços que Obama vai fazendo para lhe negar esse direito. Para Obama, se ser rico é um pecado, ser um político bem sucedido já é uma virtude. É muito interessante como um discurso vindo de Washington, num tempo em que a classe política goza de tão pouca consideração, vingou tão bem.

Este será o teor do discurso de Obama: quem queira o bem público, o único aceitável por pessoas de bem, trabalha para os outros. Como ele o fez quando foi voluntário em Chicago; como ele o faz agora, em comissão de serviço, como presidente dos EUA. A mensagem de Obama é, como foi em 2008, muito subtil, mas mortífera: ele quer ser presidente dos EUA, não porque seja ambicioso, mas porque pretende prestar um serviço. A partir daqui, a sua mensagem voltará a repetir-se: aqueles que trabalham para que o seu negócio cresça, os que estão imbuídos pela ideia do lucro, os que visam apenas os seus interesses devem ser travados. Travados, não no sentido de impedidos de continuarem a fazer o que fazem tão bem, que é criar riqueza, postos de trabalho e receitas fiscais, mas de serem canalizados para o bem comum, precisamente por aqueles que já abraçaram a causa pública. Se a hipocrisia subjacente a este raciocínio lhe faz impressão, peço-lhe que continue a ler o artigo. Caso contrário, por favor, pare. O que aqui está escrito não é para si.

Recomecemos com calma. que o assunto é delicado e sério. Não há nada de errado em seguir uma carreira pública. Ela é desejável e imprescindível num estado de direito. A dignidade que lhe está subjacente é de louvar e respeitar. Aqueles que a seguem devem procurar o equilíbrio, a estabilidade e a segurança de que qualquer sociedade necessita para que viva em liberdade. Este deve ser o objectivo do serviço público. Este. Não ultrapassar as suas funções para, em nome do Estado, ou seja, de todos, direccionar a economia, favorecendo sectores de actividade em detrimento de outros e, dentro desses, alguns empresários, discriminando os que não conseguem, ou não querem, ter “amigos” no poder. E também não passa, apenas porque as contas públicas estão em maus lençóis, por lançar suspeitas sobre os que, de fora da esfera pública, decidiram ganhar dinheiro. Infelizmente, apesar de errada, esta tendência ir-se--á acentuar no decorrer deste ano.

É que não há nada de errado em querer ganhar dinheiro e acumular riqueza. Se achamos que há, saberemos também que quem assim age perde mais do que julga ganhar. Ou seja, é algo que não nos diz respeito se quem ganha dinheiro o faz de forma não criminosa e sem favores políticos. Até porque nós precisamos de quem ganhe muito dinheiro. Precisamos das pessoas que têm o faro para a riqueza, o dito toque de Midas. E precisamos também de centrar a nossa crítica, não em quem enriquece por mérito, mas naqueles que o conseguem devido às boas relações que têm com o poder político. Na verdade, são estes últimos os ricos ilegítimos. Os ricos favorecidos que não merecem o nosso respeito. Se discernirmos esta diferença elementar, mas tantas vezes esquecida, compreenderemos como a luta dos próximos anos não deve ser entre ricos e pobres, mas entre os que trabalham de forma honesta e os que vivem dos dinheiros e dos favores públicos.

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março 19, 2012

No Fio da Navalha

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O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A moral ilegítima

Se os políticos escolherem cirurgicamente os que ficam de fora do Estado social, a moral que o justifica fica pelo caminho.

François Hollande, o homem que as sondagens indicam poder afastar Nicolas Sarkozy do Eliseu, promete criar uma taxa de imposto de 75% para os rendimentos acima de um milhão de euros anuais. Actualmente, a mais elevada é de 41% para os rendimentos acima dos 72 mil euros ano. De acordo com o “Le Monde”, o próprio director de campanha de Hollande, Pierre Moscovici, devido ao reduzido número de franceses abrangidos por esta taxa suplementar, considera a medida meramente simbólica e com poucos efeitos práticos. Ao que parece, a repercussão no défice das contas públicas será nulo. Independentemente de tudo isso, Hollande classificou a taxa especial de imposto como “um acto de patriotismo”. Porquê, se não vai dar resultados? Porque vira as massas contra um grupo anónimo, alvo de animosidade fácil. O que se retira da proposta de Hollande é que, para o candidato do PSF, é igual se a riqueza foi merecida ou se conseguida através dos bons contactos empresariais que alguns têm com o Estado francês. Para Hollande, é a quantidade que se recebe que determina a moral. Não o acto em si. Não é difícil imaginar o perigo que esta nova determinação do que seja certo ou errado representa.

Infelizmente, não é só Hollande que faz jogo sujo nas presidenciais francesas. Sarkozy, receando uma derrota humilhante em Abril, pisca o olho à extrema-direita, prometendo baixar a quota de entrada dos imigrantes. De repente, são estes estrangeiros os culpados pelo desemprego, o crime e a violência. Atente-se bem no raciocínio do presidente francês: não são os impostos, nem a burocracia estatal, nem as centenas de milhares de franceses que vivem à conta dos compatriotas que trabalham. Não. A justificação para uma economia estagnada há quase 15 anos está nos imigrantes, os que não podem votar, mas procuram uma nova vida naquele país. Outra massa incógnita. Outro alvo fácil do rancor. Um ressentimento que está a crescer à medida que as dificuldades aumentam e que os políticos direccionam de forma a atingir quem quer que seja que não seja o Estado. O objectivo é evitar quaisquer críticas às políticas socialistas que conduziram o Estado social à falência.

A semelhança entre as propostas de Sarkozy e Hollande é que ambas visam contornar problemas que resultam das políticas de solidariedade social. Para Sarkozy, os imigrantes, muitas vezes sem trabalho, acabam por beneficiar das regalias do Estado social serem terem feito os devidos descontos. Para Hollande, a própria concepção do que seja a solidariedade estatal é contrária à existência de ricos, sendo imoral haver quem ganhe tanto quando outros pouco têm. O resultado é que o Estado social, que se foi alargando a todas as classes sociais, visando a universalidade, se está a entrincheirar atrás de um eleitorado, ao mesmo tempo que aponta o dedo aos que vão ficando de fora. Mais: o socialismo vingou porque visava ajudar os mais pobres, permitindo-lhes o acesso ao trabalho, a uma rede de segurança que os apoiasse quando preciso. A sua força moral era essa e era imbatível. De tal forma que poucos a questionaram e muitos a ela se renderam. Aquilo a que assistimos agora são chefes de Estado a atacar grupos de cidadãos sem defesa, não em prol dos mais fracos, mas de um eleitorado ainda maioritário que teme assistir ao fim dos benefícios auferidos com o alargamento das funções do Estado. Um eleitorado que teve do seu lado a força do Estado para viver em segurança, mesmo que à custa do esforço dos que pagavam. Agora que os sucessivos défices públicos obrigam a cortes nas despesas, quando há uma luta desenfreada para não ficar de fora de um barco que já não aguenta tanta gente, a moral que fundamentava o socialismo desapareceu. Sarkozy e Hollande querem salvar o modelo social europeu. Esquecem-se de que ele se fez para integrar, e não para pôr de parte. Ao culparem uns para protegerem outros, acabam por questionar a própria moral socialista, tornando-a ilegítima.

Publicado por André Abrantes Amaral em 09:41 AM | suas observações (0) | TrackBack (0)