janeiro 13, 2005

Mau Sinal?

O Bruno mostra-se aqui reticente quanto à possibilidade de um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestiniana, mesmo após a vitória de Abu Mazen. Muitas dúvidas têm sido apresentadas, quer à esquerda, quer à direita, quanto à possibilidade de resolução do conflito no Médio Oriente. Eu concordo em parte com este cepticismo, mas também não posso deixar de chamar a atenção do Bruno para uma coisa muito simples: Não há outro remédio. Ambos os lados já o sabem e o entenderam. Desde há muito tempo que a sociedade israelita compreendeu a necessidade de existência de uma Palestina livre e desde a morte de Arafat que os líderes palestinianos podem negociar livremente com Israel. É verdade que o surgimento de um Estado Palestiniano não trará, por si só, a paz (daí o meu parcial cepticismo), mas será um passo nessa direcção. A paz virá quando os líderes palestinianos realizarem que, com uma política de cooperação com Israel conseguirão mais e melhor que com a manutenção da hostilidade. Israel deixará de ser a causa de distúrbio para começar a ser a ajuda necessária. A paz na região só se faz com um Estado Palestiniano (que nunca existiria sem Israel) e um combate cerrado e implacável aos grupos terroristas. A Palestina quer ser livre? Que o seja.

Para se compreender o quanto a situação está a mudar na região julgo ser bastante interessante a leitura deste comunicado do Conselho de Ministros de Israel sobre a forma como decorreram as eleições para a liderança da Autoridade Palestiniana, nomeadamente os pontos 2 e 3. Saliento a chamada de atenção do Ministro da Defesa, Shaul Mofaz, para a redução dos atentados terroristas no interior de Israel. Também aqui sou, e sempre dentro do possível, optimista. Mau sinal? Pelo contrário, os sinais nunca foram tão bons. Pode tudo acabar por correr mal, mas nunca foram tão bons.

Publicado por André Abrantes Amaral em janeiro 13, 2005 10:33 AM
Comentários

Gostei do que escreveste. Gosto do teu optimismo, a situação actual não interessa a ninguém. E sou da opinião que, *como passo intermédio*, mais vale a pena uma paz em que uma das partes (Palestina) cede mais do que a outra (ao aceitar a existência de Israel, coisa que já fez há uns bons anos) do que esta situação, de guerra declarada, tão desigual e cruel que é actualmente. Com a desigualdade mais vale a pena que seja uma desigualdade pacífica do que a situação actual. A longo prazo o plano passa por uma igualdade de tratamento entre Palestina e Israel. Jerusalem como capital do estado Palestiniano, o que é terminanentemente recusado pelos israelitas. E muitas outras coisas tidas como tabu por Israel mas como sacrosantas pelos lideres palestinianos e pelo mundo árabe.

Mas deixa-me tecer dois comentários. Em primeiro lugar, afirmas que a paz na região só se faz com um estado palestiniano. Na realidade poderia haver paz com um estado único, que chegou a ser um dos vários cenários propostos desde que o conflito se iniciou mas principalmente desde 1948, aquando da implantação do estado de Israel. E não foi uma opinião de comentadores, ou à margem do processo político: foi um dos principais cenários propostos pela então recentemente criada ONU, pelas suas comissões de observação do conflito e outras organizações internacionais, incluindo estados.
No ano passado fiquei parvo quando vi o próprio Tom Friedman, conhecido colunista e broadcaster norte-americano - e de origem judaica, aliás, viveu muitos anos em Israel - a difundir esta ideia como sendo um dos impactos possíveis da criação do muro separador entre Israel e Palestina. Foi num documentário da CNN, em Maio.

Obviamente, tal cenário está completamente posto de parte por Israel. É que não se trata de *partilhar* soberania, mas sim de a perder. De 1948 em diante, mas principalmente em 48 e 49, centenas de milhares de palestinianos foram expulsos e coagidos a abandonar as suas aldeias - simplesmente porque não interessava e ainda não interessa a Israel estar numa situação de minoria numérica em relação aos árabes. Por isso é que Israel apoia cada vez mais a solução da criação do estado Palestiniano, que tanto resistiu durante tantos anos.

Segundo comentário: dizes que o estado palestiniano nunca existiria sem Israel. Se dissesses "o estado palestiniano [com as actuais fronteiras] nunca existiria sem Israel" isso é perfeitamente verdade. Até porque se Israel não tivesse sido criada o mais provável é que a Palestina tivesse sido dividida pelo Líbano, Jordânia (ex-Transjordânia) e Egipto.
Mas da forma como o dizes pode ser interpretada como Israel não só sendo um "player" importante na criação do estado palestiniano, mas que tem sido um sponsor, um apoiante, um "campião" daquela causa.
Isto é, abertamente, a maior das falsidades e um encobrimento da história que levou à situação actual. Como é sabido Israel tem sido, desde 1948, a causa da Palestina *não ser* um estado autónomo, independente e igual perante os seus pares. Negar isto é negar a história. O que apesar de não ser nada de novo nem neste conflito nem em qualquer outro, ainda assim não deixa de chocar.

Afixado por: Dito Cujo em janeiro 13, 2005 11:44 AM

Venho só deixar um beijo e o meu muito obrigada por tudo! BShell

Afixado por: blueshell em janeiro 14, 2005 02:28 AM

Dito Cujo,

Em tempo te responderei.

Um abraço.

Afixado por: André em janeiro 14, 2005 01:03 PM