janeiro 14, 2005

Só Temos o Presente

Hoje, no noticiário da rádio que costumo ouvir, a RFM, ouvi o filósofo José Gil dizer que o problema de Portugal é o não ter um futuro delineado, não ter um projecto. Eu não tenho formação em filosofia, mas não posso deixar de dizer o quanto nunca concordei (posso estar profundamente errado, admito-o) com esta ideia de um futuro e de um projecto, da mesma forma que não gosto de suspirar quando olho para o passado. Ultimamente tenho lido e aprendido algumas coisas de autores (essencialmente britânicos) que se contrapuseram ao pensamento racionalista que pretende construir um mundo melhor (o que quer que isso seja). Antes de os conhecer apenas me agarrava a Morris West (um Australiano). Numa pequena entrevista que deu, em 1996, disse, entre outras coisas:

You know one of the causes of modern despair is the fact that we have had proposed to us, from various quarters, an impossible perfection. You know, 'if you become the perfect Marxist you have a perfect society', 'become a perfect fascist you have a perfectly controlled society'. It's all nonsense. The fact is that you've got the same people subject to the same pressures and to the effect of their own weaknesses, both inherited and acquired, and you have to live with that. You can't change yourself in the sense of saying "well I have a bad temper I'm not going to have a bad temper next week", of course you will. But you have to learn to control it and other people have to learn to be tolerant of you.

O ansiar por um futuro perfeito como contraponto a se olhar com nostalgia para um passado distante e que não se repete, de nada nos serve. O que temos é o tempo presente. É esse que nos cabe viver. O futuro? Ele que venha que nós cá o estamos para receber.

Publicado por André Abrantes Amaral em janeiro 14, 2005 10:42 AM
Comentários

Eu também prefiro um futuro não planeado; e, como tu, associo um futuro planeado a sociedades onde não existe liberdade.
No entanto tem de existir um plano básico de saber onde queremos estar. Que tipo de sociedade queremos. E de tomar passos nesse sentido. E esses passos podemos tomá-los hoje.

Afixado por: Dito Cujo em janeiro 14, 2005 12:20 PM

Tomá-los hoje. Ok. E se no futuro mudarmos de opinião? E se uns mudarem e outros não? O que fazer? That's the problem.

Afixado por: André em janeiro 14, 2005 10:35 PM

Talvez não seja bem isso que esteja em causa. Talvez isto mereça uma reflexão mais demorada...

Afixado por: mário em janeiro 15, 2005 12:06 AM

Em que sentido, Mário?

Afixado por: André em janeiro 17, 2005 02:46 PM

André,
Todos têm direito à mudança de opinião, de rumo de vida, etc. O facto de hoje querer uma coisa e amanhã querer outra não quer dizer que hoje eu não posso fazer algo que eu pense que amanhã possa ser inútil.
Não fazer planos e não tentar pô-los em prática significa que andamos a "navegar à vista". E toda a gente sabe que navegar à vista é mais longo, demorado e por isso *caro* do que ter uma carta marítima para poder seguir a direito.
Mas gostava de te meter um bocado de "veneno", gostava de perceber-te: como é que tu, que apoias a responsabilização pessoal de cada um pelo seu futuro e em que isso implica planeamento (pensões e seguros, por exemplo), podes dizer que podemos navegar à vista?
Dá-me a impressão que tens uma visão mais expontânea da vida, o que é óptimo mas, a assim ser, é incompatível com a ideologia de direita que professas.

Afixado por: Dito Cujo em janeiro 19, 2005 08:35 PM

Dito Cujo, responsabilização pessoal é uma coisa, colectiva é outra.

Quando me refiro a responsabilização pessoal, não quero dizer que as pessoas devem 'pagar' pelos seus erros ou, serem 'premiadas' pelos seus sucessos. Apenas que cabe a cada um decidir. O difícil será equilibrar tudo isto. Mas esse é o desafio, não o de impor caminhos comuns.

Afixado por: André em janeiro 20, 2005 03:11 PM