fevereiro 17, 2004

A Nova Esquerda e a sua Tentativa em Destruir a Civilização Ocidental Liberal – Segunda Parte

Ontem salientei que a Velha Esquerda (comunista e socialista) partindo de premissas económicas (erradas, como o tempo o provou), entendia o bem comum da mesma forma que os liberais. O bem comum era o bem estar económico.

Afirmei também que a Nova Esquerda já não parte do mesmo princípio. A Nova Esquerda não pensa em termos económicos.

Quais as implicações desta pequena, mas importante diferença?

Para que nos apercebamos das suas implicações temos de começar por lembrar que uma das grandes inovações que a revolução liberal trouxe para o mundo das Ideias foi a afirmação da impossibilidade de se definir previamente o que constitui a felicidade dos outros. Para os pensadores liberais, esse conhecimento só se revela através dos comportamentos, das escolhas, que os indivíduos fazem no mercado livre.

Esta ideia é a base da nossa sociedade moderna e secular. Esta ideia traduziu-se numa enorme ruptura com o passado pois, até às revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX, sempre se considerou ser possível conhecer apriorísticamente as necessidades da comunidade. Era um conhecimento invulgar a que só pessoas invulgares tinham acesso. Por isso não se conhecia a democracia. Por essa razão os regimes eram absolutistas e o rei governava por inspiração divina.

Ora, o que nos traz a Nova Esquerda? Ela diz-nos que o princípio liberal até pode ser verdade se apenas pensarmos na felicidade do homem como bem estar económico. Acontece que, existem outras necessidades. Necessidades sociais, culturais, ecológicas e outras que mais. Estas necessidades, defende a Nova Esquerda (representada na política pelo Bloco de Esquerda e parte do Partido Socialista e na blogoesfera pelo Barnabé e o Blogue de Esquerda) não se manifestam por meio das escolhas que o indivíduo faz no mercado livre.

Para a Nova Esquerda, estas necessidades são perceptíveis apenas por alguns que se arrogam em conhecer o que precisa a sociedade.

Isto explica porque a Nova Esquerda está constantemente a lançar, para o debate político, questões e soluções, como a liberalização do uso de drogas, que não representam a vontade da maioria. Isto explica a certa arrogância que se nota e sente quando se ouve Francisco Louçã e se lêem os escritos do Barnabé.

A Nova Esquerda considera-se aprioristicamente sabedora das nossas necessidades. Ela representa, pois, um retrocesso ao passado.

Pela razão deste ‘post’ estar a ficar maior que o desejado, decidi continuar amanhã com uma terceira parte. Nela procurarei então expor porque a Nova Esquerda ataca violentamente toda e qualquer política norte – americana, como ela está a crescer e a organizar-se na sociedade portuguesa e porque utiliza uma certa calúnia e a ridicularização (que classifica de humorísiticas) como armas políticas.

Publicado por André Abrantes Amaral em fevereiro 17, 2004 01:32 PM | TrackBack
Comentários

eu li isto no samuelson ;-) e também no soares martinez ;-) e no fernando araújo e saldanha sanches ;-) epah não é q estudámos economia política! ou entao um de nós só leu :p

Afixado por: golfinho em fevereiro 21, 2004 04:51 AM

Isso é uma verdade. A extrema-esquerda considera-se sempre sabedora das necessidades do povo, mais do que o próprio povo até.

Afixado por: Pedro Sá em fevereiro 20, 2004 10:16 AM

Caro CMF, respeitando a sua opinião e não o querendo menosprezar nos seus ideais de vida quanto à descendência, penso que a forma como algumas pessoas encaram o conceito de família, querendo-o alargar aos casais homossexuais, para que assim estes possam exigir direitos inerentes às famílias, provoca uma certa banalização de valores e ideais civilizacionais que devem ser preservados.
Claro que as civilizações evoluem nas suas atitudes e comportamentos, mas o mesmo não quer dizer que certos valores deixem de ser imutáveis: o direito à vida e, porque não, o direito à defesa da família...
Mas, esta é apenas a minha opinião!

Afixado por: Peixoto em fevereiro 19, 2004 05:39 PM

Caro Peixoto, uma coisa é a banalização da homossexualidade, outra é a banalização do conceito de família. Se calhar escolheu mal as palavras no seu primeiro comentário.
Mas falemos do conceito de família. É imutável? É um conceito definido por quem? Por ninguém. É um conceito que, como todos os conceitos e ideias associados à civilização humana (existirão outros??) esteve e está sujeito à evolução e à selecção natural. Tal como existiram espécies que se desenvolveram, dominaram a terra e se extinguiram, o mesmo acontece com os conceitos. Não aceitar que o actual conceito de família, que é ainda maioritário nas mentes humanas, pode (e reforço aqui a palavra PODE, não estou a dizer que DEVE) começar a desaparecer até à extinção ou até à sobrevivência num pequeno nicho minoritário é fechar os olhos aos mecanismos que nos trouxeram (a nós, espécie humana) até aqui.
Eu, que não tenho nem quero ter filhos, tenho um conceito de família que, presumo, deve ser diferente daquele que o Sr. Peixoto defende. Não tenho o direito de enaltecer as virtudes de uma vida sem descendência? Devo ser excluído da sociedade como um pária que só merece tratamento ou castigo? Há uma coisa que o nosso cérebro nos trouxe: civilização. Essa civilização veio acompanhada pela cultura. A civilização e a cultura distinguem-nos dos outros animais. A civilização e a cultura legaram-nos esta diversidade de opiniões, ideias e conceitos que o Sr. Peixoto pode ver em seu redor e que, aparentemente, e nalguns casos, o chocam. Mas negar esta diversidade é negar a civilização e a cultura e colocar-nos ao nível dos outros animais. Transformar-nos-íamos em seres condenados à procriação e à sobrevivência.

Afixado por: CMF em fevereiro 18, 2004 10:52 PM

Caro CMF, pode crer que me preocupa a forma como alguma da esquerda portuguesa, com destaque para o Bloco de Esquerda, vem constantemente "exigir" o alargamento de determinados direitos afectos às famílias para os casais homossexuais. Falo, nomeadamente, do direito ao casamento e à adopção...
Se isto não é tentar banalizar a homossexualidade, pondo em causa o conceito da família, não sei o que é?

Afixado por: Peixoto em fevereiro 18, 2004 07:27 PM

Para o Sr. Peixoto a "liberalização, desresponsabilização e banalização de fenómenos como...,a homossexualidade" parece ser um a factor de preocupação. Lamento, pelo Sr. Peixoto e por alguém que alguém que possa vir, alguma vez, a estar sob a responsabilidade do Sr. Peixoto.
Espero que o André não se identifique com comentários deste calibre. Caso contrário, estou aqui a perder o meu tempo.

Afixado por: CMF em fevereiro 18, 2004 04:14 AM

Esta Esquerda de que o André fala tenta, por meio do facilitismo verbal, captar a juventude que se sente afastada da política, por forma a engordar a sua capacidade de fazer "barulho".
Para tal, esta Esquerda socorre-se de temas que para uma juventude irreverente lhes soa a música aos ouvidos: liberalização, desresponsabilização e banalização de fenómenos como as drogas, o aborto, o álcool, o tabaco, a homossexualidade, etc.

Afixado por: Peixoto em fevereiro 17, 2004 11:07 PM

Resumo do que eu penso:
1 - Em democracia as maiorias nem sempre têm razão; nas ditaduras muito menos;
2 - A liberalização da economia tende para o capitalismo selvagem (por exº, fechar empresas que dão lucro mas que podem dar mais noutro local qualquer);
3 - A saúde da economia americana reflecte-se na europeia e na portuguesa;
4 - Havia alternativas à guerra do Iraque, mesmo sendo apenas para derrubar um ditador e ficar-lhes com o petróleo;
5 - Para nós era preferível, economicamente falando, que o petróleo ficasse em mãos europeias;
6 - Mas o petróleo é dos iraquianos;
7 - A guerra não teve ainda reflexos económicos positivos, mesmo para os EUA (antes pelo contrário, mesmo sabendo que quando não há mais nada que fazer deve-se abrir buracos e voltar a tapá-los - citação de um guru, que poderia aplicar-se às fábricas de armamento dos EUA);
8 - Foram sempre as minorias que fizeram grandes alterações estruturais a nível mundial (exº: quem e quantos pensavam em ambiente nos anos 60 e 70?).

Nota final - tens razão quando dizes que certa esquerda ataca muito mal toda esta problemática, mas os argumentos que utilizas são de sinal contrário e, por isso, correm o risco de ser classificados de igual modo. Pensa melhor no assunto.

Afixado por: Nilson em fevereiro 17, 2004 06:53 PM

Uma questão: dizer que a defesa da liberalização das drogas não representa a vontade da maioria baseia-se nos mesmos estudos que diziam que o povo português não apoiava a intervenção militar no Iraque? Penso que o André está a cair no mesmo erro de argumentação que enferma a nova esquerda.
Na minha opinião a legislação, as opções de um governo ou da oposição não devem ser baseadas na eventualidade de serem, ou não, apoiadas pela maioria dos eleitores. Ao contrário do que aparenta, isso não é democracia. Isso parece-se mais com a abominável "ditadura do proletariado" defendida pelo marxismo. Os políticos devem tomar as decisões que, na altura, pensem que sejam as mais adequadas. Nas eleições seguintes serão julgados pelas suas opções. Claro que essas opções devem ser de alguma forma orientadas pela opinião pública. Mas nunca devem ser constrangidas pela mesma. (e muito menos para fins eleitoralistas, claro).
E depois existe ainda outra questão. O bloco de esquerda não representa eleitoralmente a maioria da população, antes pelo contrário. Deveria o bloco ser (moralmente) obrigado a apresentar projectos nos quais a maioria da população se pudesse rever? Não me parece.

Afixado por: CMF em fevereiro 17, 2004 02:08 PM
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