Assisti, ontem, ao final do programa ‘Sociedade Aberta’, no qual o jornalista António José Teixeira entrevista semanalmente Mário Soares. O ex-Presidente da República disse várias coisas bastante interessantes, todas à volta da visita de Bush à Europa. Primeiro, começou por afirmar que os EUA, com a Administração Bush, se tinham afastado da tradição Ocidental de respeito pelos direitos do homem. A título de exemplo, apontou a guerra preventiva que foi a intervenção no Iraque. De nada valeu ao Dr. Soares considerar, por um momento apenas, como encaixar no seu raciocínio, as eleições realizadas no Iraque há poucas semanas. De nada lhe vale conceber que, existem nos EUA, várias correntes de opinião que entendem precisamente o contrário: A Europa, porque influenciada pela filosofia germânica e pelo niilismo de Nietzsche, ela sim, traiu a civilização Ocidental. Mas Soares disse mais. Afirmou que o presidente norte-americano precisa da Europa porque, e prestemos a merecida atenção: a) A economia americana está em declínio, enquanto na Europa é que está o dinheiro; b) A América, necessita da Europa para enfrentar o emergir económico da China, da Índia, da América Latina e, pasmemo-nos, da África. O que Soares não explicou, é o que entende ele sobre a crise social que assola os países europeus e, como se coaduna o crescimento económico de todos os cantos do mundo, com as suas críticas constantes à globalização. Afinal o fosso entre ricos e pobres está maior ou menor? Soares não diz. Também falou de Israel, claro. Reconheceu, apesar de Arafat, para ele, ter muitas qualidades (Soares nunca trai um amigo), que o futuro é mais risonho depois da sua morte. Não mencionou Sharon, nem Bush. Disse apenas que os EUA (devido à aludida decadência económica) não estão dispostos a sustentar, por muito mais tempo, o Estado Judaico. Não explicou, no entanto, porque, se assim é, os Palestinianos tentam agora a paz e não continuam a enfrentar Israel até este perca todos os apoios que tem e se vá embora de vez.
Eu gosto de Mário Soares. A sua inteligência e argúcia, o modo simples e despretensioso com que desvirtua a realidade e torneia a argumentação para nos levar às suas conclusões, obriga-nos a estar constantemente atentos, à espera da rasteira, que chega quando menos esperamos. Quando ouvimos Soares, somos embalados pela sua magia, o seu à vontade e estado de espírito. Por isso, digo-o sem malícia, gosto do nosso ex-presidente que parece estar, constantemente, a tourear-nos. Obriga-nos a pensar, a reflectir e a escrever todo este texto logo de manhã.
Publicado por André Abrantes Amaral em fevereiro 23, 2005 09:46 AMNão pretendo apontar o dedo sempre na mesma direcção, mas não faria parte de uma boa entrevista, ter o António José Teixeira a questionar Mário Soares sobre as suas certezas? Porque não pedir-lhe que demonstrasse o declíneo económico americano ou explicasse o porquê das reformas que os países nórdicos têm levado a cabo nos seus sistemas de estado que a tudo provê? Este tipo de programas são monólogos nos quais os "senadores" falam para si próprios de um mundo que já lhes vai passando ao lado.
Afixado por: LA em fevereiro 23, 2005 10:48 AMTb gosto disso nele,aquilo que diz e aquilo que parece que disse mas não chegou a dizer....as artimanhas...o gozo que tem ao pregar rasteiras...é um homem fascinante.E depois como existem por cá poucos é claro dá nas vistas:)))!
Afixado por: annie hall em fevereiro 23, 2005 10:56 AMNão vi o programa, mas gostava de saber se AJT perguntou a MS se ele ainda mantinha a sua opinião de que Bush era "um drogado e um bêbado".
Afixado por: Dupont em fevereiro 23, 2005 12:17 PMNão vi o programa mas já fiquei enjoado do senhor só pela descrição.
Afixado por: Mário em fevereiro 23, 2005 01:29 PMSoares é o homem das contradições e dos esquecimentos. Agora esqueceu-se que durante a campanha interna para as eleições no PS acusou Sócrates de demasiado liberal e que o PS e Portugal ficaria a perder caso Sócrates viesse a ser eleito líder do PS e candidato a Primeiro- Ministro...
Agora, diz o contrário...
LA, devo dizer que não gosto da forma como António José Teixeira entrevista Soares. Dá a sensação que o está a servir. De resto, até gosto de o ouvir falar, mesmo dê ares de homem demasiado ponderado.
Annie, o homem é inteligente. Lá por isso, lhe devemos tirar o chapéu.
Dupont, o AJT não deve ter tido coragem. Também lhe deviam perguntar a ele e ao Freitas se ainda acham Bush igual ao Hitler. :-)
Mário, eu não enjoei. É preciso ouvir Soares com um certo relax.
Peixoto, Soares sabe que agora é com Sócrates. Mas, verdade seja dita que, em campanha, disse que (salvo erro) Sócrates era o líder que o PS tinha.
André, não nos enganemos. A "velha raposa" mantém toda a sua sagacidade. Ouvi-lo com relax é conveniente para perceber o que está por detrás das suas palestras. Concordo com o que diz de AJT. Era exactamente esse o meu ponto.
Afixado por: LA em fevereiro 23, 2005 04:52 PMLA, concordo. Quando falei de relax, não quis dizer falta de atenção, muito pelo contrário. É preciso estar sempre alerta. É o que dá graça em ouvir Soares. É como um jogo. E sendo um jogo não vale a pena nos chatearmos muito. Eu fartei-me de sorrir.
Afixado por: André em fevereiro 23, 2005 04:59 PM"mas não faria parte de uma boa entrevista, ter o António José Teixeira a questionar Mário Soares sobre as suas certezas?"
Subscrevo totalmente!!!
Afixado por: diógenes em fevereiro 23, 2005 06:28 PMCaro Diogenes, às vezes tem a sua piada, e como diz o André, até dá para sorrir, o esforço que os entrevistadores fazem para não obrigarem os entrevistados a explicarem a suas certezas inverosímeis. É que se entrassem em contradição, deixavam de ser entrevistados omniscientes.
Afixado por: LA em fevereiro 23, 2005 11:16 PMSoares é um batoteiro. Apenas, e só.
Afixado por: orabolas em fevereiro 24, 2005 07:01 PM