abril 20, 2006

A Minha Conversa com Agostinho da Silva

Em 1988 ou 89 (não me recordo com exactidão do ano) comecei a ouvir falar do Prof. Agostinho da Silva. Era um senhor com ar patusco que aparecia na televisão e dava entrevistas a jornais onde dizia umas coisas engraçadas e fora do habitual. A partir de então, Agostinho da Silva juntou-se no meu imaginário a Miguel Esteves Cardoso e os dois passaram a ser minha leitura predilecta na imprensa portuguesa. Onde quer que surgissem (uma entrevista, uns escritos, dizeres, qualquer coisa), lá estava eu a comprar e a sorrir, com o sorriso próprio de quem se sente o único a concordar e anuir. O sorriso de um privilegiado. Quando em 1990 tive de fazer uma entrevista para a disciplina de jornalismo, que fazia parte do programa escolar do 10.º ano, arrisquei em falar com Agostinho da Silva. Tive sorte. Ele atendeu o telefone quando, conforme me explicou, estava a educar o aparelho a falar apenas para fora. O encontro foi marcado para uma manhã de Abril, ali perto do Miradouro de São Pedro de Alcântara. A conversa, tida comigo e mais dois colegas, o José Carlos Tavares e o João Silva, foi gravada, garantiu-nos uma belíssima nota e deixou-me uma recordação para a vida.

Agostinho da Silva – A primeira ambição que os portugueses do século XIII trouxeram ao mundo foi a de um futuro em que se seja livre de ser o que se é.
A segunda foi a de haver a tal vida livre de pagar, vida gratuita, de que a economia se aproxima: Hoje há muito desempregados, podem viver à vontade.
A terceira: Não haver cadeias, parece que eles achavam que se as crianças não fossem deformadas e se houvesse vida gratuita, a respeito de crimes estamos conversados: Não havia crimes. Eles não achavam, que houvesse outra origem para o crime, senão as deformações apanhadas pelos jovens, e por outro lado a pressão que a economia exerce sobre as pessoas, os pesadelos que dá a cada um.

André Amaral – Então não devia haver economia e todas essas organizações?

AS – Vou-lhe dizer assim: Acabava de haver pedagogia e a economia, hã? Não havia mais essa história, e a criminologia, como consequência, não é assim?

AA – Um bocadinho difícil, agora...

AS – Meus caros amigos, eu estou-vos a dizer o que os portugueses do século XIII queriam...E pergunto agora: Há gente contra que a criança, possa crescer livremente, num mundo também livre dessa questão da economia? Eu acho que fundamentalmente não há. E por isso, até já estão surgindo reformas pedagógicas, e todas as reformas pedagógicas são feitas para dar liberdade à criança, não é?... O que não quer dizer que na realidade isso venha a existir, por exemplo, o ministro da educação fez agora as escolas culturais, e o que está a acontecer? As escolas culturais estão desaparecendo, porque a máquina burocrática do ministério da educação aproveita todas as possibilidades de dar cabo disso. Para mim a burocracia não dá para aquilo e aquilo não dá para a burocracia...bem...mas estão-se, agora fazendo escolas com mais liberdade, no meu tempo só se desenhava o que a professora desenhava primeiro no quadro para toda a classe...E agora já há muita liberdade para um sujeito desenhar o que quer, escrever o que lhe apetece. Bom segunda coisa, já a economia está muito mais perto da vida gratuita do que eles tinham. Os coitados (os homens do sec. XIII) não produziam o suficiente, portanto, como se faz hoje: Se se quiser mandar para o Sudão ou para Moçambique, que têm fome, toneladas e toneladas de comida, manda-se. Portanto já estamos mais perto de uma economia que chegue para todos, não é? De facto a diferença que há entre o sec XIII e o sec XX é enorme, e como a máquina, o maquinismo, o sistema que deu esse processo, se está acelerando, é possível que no 3º milénio, ou no quarto milénio, um milénio a mais ou a menos, não faz diferença, se possa ter atingido essa economia que chegue para todos...E graças aos portugueses, não havia mais ninguém no mundo, homem...è coisa estranha, sabe? O português é um bicho esquisito...Todos os outros povos, estabeleceram nos seus países, aquilo que já havia...Os portugueses não! Os portugueses descobriram que havia na península, um pais pelo qual ninguém havia dado: As pessoas olhavam para um mapa da península...Suponhamos que já havia um mapa da península...E viam: A província romana já vai com não sei quê...Uma taipa muçulmana, que já tinha sido mais pequena, hoje era maior, portanto oscilava e umas coisas esquisitas lá no norte e etc e os portugueses olharam para aquilo e disseram: “Não senhor! Aqui há um país, direitinho à borda do mar, e quem sabe um dia, não vai servir de cais para a gente partir e chegar e ver o que há do outro lado do mundo.” Descobrimos o país! Os outros se quiserem, podem dizer que inventámos um país, porque é uma situação, em que as pessoas não sabem se descobrem se inventam: Aquilo não estava lá! Descoberta, era se lá estivesse, e quem sabe se depois no futuro, nós não empregamos o verbo descobrir, por sermos modestos, e dizemos que apenas tiramos o cobertor de cima de alguma coisa que cobrir o que nós íamos descobrir? E descobrimos não é? Mas quem sabe se inventámos. Se a África depois que passaram os portugueses foi uma coisa completamente diferente? Foi. Olhem no Brasil foi, naquelas Américas, no Oriente também foi a esse ponto. Bem...


AA – Mas os espanhóis também colonizaram a América do Sul, não foram só os portugueses.


AS – Os espanhóis não colonizaram! 1º: Colonizar é um verbo de vários significados, Por ex: Se vocês estudam o verbo na Grécia, o que era: Numa cidade o partido B era vencido pelo partido A, então emigravam. O partido B não queria viver mais naquela terra e emigrava e às vezes auxiliado pelo partido A vencedor, para mostrar que tinham de ir embora. Iam fazer uma colonização. O que é essa colonização? Era estabelecer um país idêntico aquele, uma sociedade idêntica aquela, fora da Grécia, para Itália por exemplo. Os portugueses é claro fizeram isso no Senegal, no Brasil, em vários portos, colonizaram também nesse sentido. Colonizaram também no sentido da conferência de Berlim? Também! Por exemplo, Angola e Moçambique, foram na maior parte umas construções militares, dentro das linhas da conferência de Berlim. Dois processos de colonização completamente diferentes. Bom ou se estabeleceram fortes, para aquilo ser novamente terra nossa, ou se eliminaram os indígenas. E os espanhóis o que fizeram, Nunca foram lá com o gosto de morar e de viver com a população; Foram para dominar. Por exemplo: Quando viam aquelas obras de arte daqueles incas, daqueles mexicanos, daquela gente toda, ouro e tal, disseram:” Bom para Espanha, mas para os navios é difícil levar isto, portanto funde-se tudo, põem-se tudo dentro do navio e vai tudo a bordo e acabou-se!! Levaram tudo, e agora o que é que acontece? Acontece que todos aqueles países, estão continuamente contra a colonização espanhola; Por ex: O triunfo em grande parte daquela coisa maoísta no Peru, vem daqueles que são contra o espanhol, falar espanhol, etc.
Agora já estão a mudar, porque como eles estão em expansão, entendem que se falarem espanhol, entram com mais facilidade nos outros países, para além do Peru que eles ocuparam. Mas de facto, o espanhol não foi um colonizador, nem no sentido grego nem no português, nem no sentido apenas de uma ocupação militar, explorando o indígena evidentemente, mas sim destruíram tudo e deram cabo de tudo. De maneira que hoje, a América, chamada espanhola, Ibérica ou latina, como os franceses dizem, aproxima-se da Europa por intermédio de Portugal, não indo directos a Madrid, mas sim a Lisboa, porque quem sabe se ainda estão em Madrid o Cortez e o Pizarro? Cautela, para não irmos por aí, que é outra gente sabe?


AA – E Portugal, como é que se portou? Foi de modo diferente?


AS – Claro. Fez coisas... Por exemplo no Brasil: A história do Brasil, está contada ao contrário. Como dizia uma senhora brasileira, no Porto, que ainda acreditava que Cabral tinha chegado ao Brasil movido por uma tempestade. Claro que não! Foi uma conversa com o Vasco da Gama antes de viajarem e combinaram como chegavam ao Brasil, como era essa coisa toda.
Então, como ninguém sabe a história do Brasil, ninguém diz senão que os portugueses chegaram ao Brasil e cristianizaram o índio. Coisa nenhuma! Até ao sec XVIII, o que se fez realmente, foi uma tiponização do cristão: O português entrou na tribo dos índios, se adaptou aos costumes dos índios, e isso tudo ainda não está definido, dito. Foi isso que se fez no tamanhão daquele Brasil, a fusão do português no mundo; A certa altura começou a exploração, pois claro, estabeleceu-se o capitalismo europeu, com os seus reflexos no comportamento do Brasil, mas apesar de tudo, continua a ser diferente. A impressão que dava a Argentina: Uma coisa abundante, sólida, podia fazer-se o que se quisesse, estava-se à vontade, não havia refeição onde não houvesse um bife enorme, que eles comiam com todo o agrado, muito diferente do Brasil. Passados alguns anos a Argentina entrou num instante numa ruína completa, de que ainda não está saindo: Todos os meses há um processo novo o processo falha. Ao passo que o Brasil, com um outro viver, outra maneira de ser...de repente, está fazendo uma coisa como está fazendo a D. Zélia com o Collor de Melo, e agora vamos ver o que é que dá. Caiu–lhe uma das grandes experiências do mundo, só comparável à do Mandela, na União Sul Africana e ao nosso amigo Gorbatchov, na Rússia. Estamos a ver o que é que dá e como dá jeito? E então a Espanha, seguiu as rotas portuguesas, e Colombo, que quando se estuda a História, era um marinheiro extraordinário, olhava para o ar, cheirava o mar, e sabia mais ou menos onde é que estava, um tipo danado, e por outro lado, com uma segurança em si próprio, uma convicção que tinha a verdade, que ninguém lhe igualou. Então eu costumo contar uma história, que ia o nosso amigo a navegar para lá, porque achava que o mundo era mais pequeno do que é, queria chegar às Índias antes dos portugueses, que tinham de dobrar o Cabo da Boa Esperança, e ele não, ia logo directo lá. Bom, não era isso que ele ia encontrar, porque o caminho certo era por baixo e eu costumo contar a história, de que Deus estava lá no céu, vendo aquele marinheiro, valente marinheiro navegando, e uma vez ele julgou que os marinheiros estavam fartos, porque já estavam longe de Espanha e alterou alguns cálculos que tinha feito, para ficarem mais satisfeitos: Quando julgou que mentia, estava a contar a verdade, porque os cálculos dele é que estavam errados; ao passo que o português, quando fez mapas falsos do Brasil para uso dos espanhóis, foi só depois de saber os verdadeiros, porque quem faz falso sem saber os verdadeiros, pode por engano fazer um verdadeiro. O Colombo era esse tipo. Então Deus estava lá em cima e disse a um anjo: Ora esta! O tipo não vai dar com a Índia e conseguir o que quer. O que Hei-de fazer? É uma pena: Um homem tão seguro, tão fiel a mim, de tão boas intenções, com tão bom carácter, como é que vai ser isto? E o anjo, de repente, com aquela espontaneidade das crianças, disse: porque é que o senhor não inventa uma terra para ele descobrir? E assim foi: O senhor inventou a América para ele descobrir. Então não foi ele o verdadeiro descobridor de coisa nenhuma. O verdadeiro descobridor, nunca sabe a aonde foi, nunca sabe onde esteve e nunca soube de onde voltou. Os portugueses de facto, é que lhe ensinaram como é que, a partir das Canárias, se encontrava o vento oeste, correcto para ir para lá, porque Colombo não sabia. Foram eles que ensinaram como aproveitar os ventos etc. Portanto todo esse barulho, que os espanhóis estão fazendo com o Colombo, é um grande engano.


AA – Já agora que estamos a comemorar os descobrimentos portugueses, como é que acha que seria a melhor maneia de o fazer?

AS – É propondo os descobrimentos do futuro.

AA – E que descobrimentos são esses?

AS – São muitos. É descobrir a tal coisa: Como é que a gente pode ter as crianças sem serem deformadas, como é que podemos dar de comer a toda a gente sem eu ter de pagar, acabar com as cadeias: Isso é que são os descobrimentos do futuro.


AA – As pessoas agora, a juventude por exemplo, para conseguirem um bom futuro durante a sua vida, uma vida estável e financeiramente razoável, têm de se sujeitar a certas organizações, começar a estudar...


AS – Não, nada disso. Por exemplo, vocês já têm os desempregados. A grande levedura que apareceu no mundo, foi o desemprego; Sabe, enquanto não apareceu a levedura não havia bom pão, e um dia o padeiro esqueceu-se do pão da véspera, deixou secar a massa e, como não estava ali nenhum freguês disse: “Vou intrujar o freguês, vou aproveitar esta massa de qualquer jeito.” Misturou-a com a massa do dia e fez ali um pão que foi um êxito. E como é que veio o desemprego ao mundo? Da mesma forma: Um homem, a certa altura, no sec XIII, instalou uma firma de costura com dez costureiras. Esse homem não morreu, continuou no sec XIV e, vem o vizinho dizer-lhe: “O senhor não quer ver uma coisa que lá tenho e que consegui fazer? É uma maquinazinha que cose.” O homem foi lá e viu e “quanto é que você quer pela maquinazinha?” O outro diz-lhe.
Fez as contas todas e disse “Dá-me para comprar a maquinhinha , despedir três costureiras e daqui a um ano paguei a maquininha e estou ganhando dinheiro, não pagando as costureiras.” Fez isso.
Depois, no sec XV, veio outro vizinho e disse “Olhe que eu descobri uma maquina melhor que a que você têm, sabe?” Até que de repente, ele chegou a uma altura em que pôs um software, um programa de computador e continuou a fazer aquela roupa toda. Ele está contente? Não está! Porque tem de pagar subsidio para o desemprego de todas as costureiras que dispensou durante 5 séculos. Aí um dia já se sabe, ele andou a juntar dinheiro, para agora ter de o gastar todo. E agora qual será o futuro, devido à divida que há no mundo, de toda a gente a qualquer outro, inclusive a América, cujo o deficit orçamental é enorme, portanto vive de dinheiro emprestado. Há qualquer coisa que não vai aguentar: Ninguém vai pagar milhões e tal de dólares a ninguém no mundo. Rebenta! E vai-se passar por um período muito interessante, em que um tipo que vai comprar um livro, tem de levar bifinhos, para trocar com o homem da livraria, porque a respeito de dinheiro...
E já há: Nas economias do Mediterrâneo oriental, já está havendo na África também: Você vê a situação em que ficaram os donos dos restaurantes em Brasília, depois de Collor tomar posse: Veio muita gente à festa, porque ali havia muito samba, “sambosse” à vontade e ,aquela gente toda foi pagando a comida que comia com cheque.
Collor tomou posse e disse: “ Com esses cheques, ninguém desconta” e os donos dos restaurantes ficaram sem nada. Tiveram de começar a abastecer-se por trocas. Estamos numa idade do mundo, em que nada é previsível, hã? Alguém previa a queda do muro de Berlim e aquilo iria suceder agora? Ninguém: de repente o navio dá um grande balanço e vão todos, e digo a todos os jovens: O que é preciso rapazes, é não enjoar a bordo; Até porque o balanço do navio vai ser uma coisa linda! E como é que nos aguentamos? Disse bem. Se perguntamos a um marinheiro, o marinheiro diz: “A única maneira é você olhar para o horizonte.”
Então teremos de ter um horizonte em terra. Qual pode ser?
O ideal que tivermos em vida. E assim nos mantemos. E assim há tipos que lutam no mundo, porque querem ser mais ricos do que o Belmiro de Azevedo, se há outros tipos que lutam no mundo, mas que têm como ideal, nunca ter o dinheiro que ele tem, porque tinham de se preocupar. O grande voto de liberdade era o que faziam os frades: Quando toda a gente acha que é submissão. Eles diziam: “Nós não queremos bens” Que era para não estarem inquietos se aumenta ou não a gasolina. Bom segunda coisa, o voto de castidade: Ter cuidado, em não possuir ninguém, para que ninguém nos possua a nós. A maquina possui toda a gente, mas é uma excepção, porque possuir, dar ordens, como fazem os japoneses com as mulheres...eu vi, fartei-me de ver no Japão moço e moça, passeando, e assim que casavam, as mulheres recebiam ordens do maridos e não davam um passo sem a autorização deles. Logo não ter essa disciplina. E agora, quando a japonesa, líder da oposição, fez a sua propaganda de campanha, e ganhou não é verdade? Dizia ela: “companheiras, são eles que vão ter de andar atrás.” Era a politica ao contrário.


AA – E como acha que deve ser: O homem submeter-se à mulher ou deve haver uma igualdade?


AS – O bom no mundo, era ninguém se subordinar a nada. Por exemplo: Ninguém ser dono de coisa nenhuma e fazer os possíveis para não serem dono dele. É o 3º voto que o frade fazia, era o voto da obediência. O tenente faz um voto de obediência, para haver organização, não é? O que livra imediatamente o tenente de ser servido por si próprio.
“Se eu sou tal coisa, e ninguém manda em mim, sou eu que mando eu mim. Então eu estou preso. Ao passo que se eu faço, aquele voto de liberdade de mim fico mais livre para gozar a vida, do que estar preso a mim próprio. Portanto, ao contrario do que pensam as pessoas, não acho que o voto dos frades seja um voto de submissão, mas de liberdade.
Bom, portanto o sujeito pode ter levado uma vida para ser como o Belmiro, e pode não ser de jeito nenhum como o Belmiro, para evitar em vida aquelas andanças em qeu o desgraçado não vive.
Ou não ser um chefe politico poderosíssimo , chateado se os cidadãos, têm empregos para fazerem uma série de combinações para nenhum eleitor falir. Aliás, candidato é aquele sujeito tão discreto , que votou nele próprio: Há uma vaga de presidentes da república, e o tipo diz: “O melhor sou eu! Vou votar em mim e apresenta-se como candidato, em vez de esperar calmamente que alguém se lembre dele e diga: “ Você devia ser presidente da república.” E logo ele dizer: “ Nem pense nisso, porque eu tenho coisas mais interessantes para fazer do que ser presidente da república.”


AA – Mas há pessoas que gostam de ser presidente da república.


AS – Pois por isso mesmo, é que o sujeito tem de lutar consigo próprio.
Agora de facto começam a aparecer vários candidatos, para serem presidente da república. Claro que o sujeito em si próprio, não poderá desempenhar um grande papel no mundo. Mas se me perguntarem: “ O senhor sabe somar?” “Sim senhor, sei somar.”Pronto, digo que sei somar, agora dizer que sou o melhor que há em somar, calma.


AA – O senhor professor é católico?


AS – Olhe não sei, se sou, se não, sabe? Não me sinto autorizado...Se eu fosse o Papa...Mas como não sou, não sinto autoridade de decidir uma coisa dessas. Bom, uma das coisas que definem ser católico é ser baptizado, eu não consenti o baptismo, mas os meus pais acharam que me deviam baptizar e baptizaram, não é assim? Bem, depois pergunto: O que é ser católico? Perguntam-me: “ É católico?” Por exemplo baptizado, “ sim senhor, sou baptizado.”
Agora se me perguntam, se acredito num Deus criador do mundo, digo “ Querido amigo que grande atrapalhação.” Se vou para a física, o físico não diz o mundo, o físico diz o universo não foi criado. Mas há que estabelecer uma diferença entre universo e mundo? Claro que há!
O universo é um termo que resume tudo: Imaginado e não imaginado. E o mundo? O mundo, e agora vou dar a grande novidade, o mundo é um adjectivo. Toda a gente acha que o mundo é um superlativo, mas não, é um adjectivo. É um adjectivo, porque se pensarem, o contrário de mundo é imundo. E imundo toda a gente acha que é um adjectivo. Então se imundo significa sujo, complicado, alguma coisa de que me afasto, mundo o que é? Significa límpido e puro. É verdade! O Camões tem uma frase em que fala das limpas almas. São almas puras, almas límpidas. Então o mundo o que é? É aquela parte do universo, que nós percebemos. O universo pode ser infinito, sabe-se lá o que há. Mas o mundo, é aquilo que eu percebo. Agora se eu digo: “Deus criou o mundo.”
Vocês perguntam: “ Mas você acredita que Deus criou o mundo?” Se, o mundo, as possibilidades de ele se conhecer no universo, me é dada por alguma coisa fundamental, no dito universo, eu aceito que sim. “É a criatividade?” “Hã?”. A única coisa que não foi criada no mundo é a criatividade. Essa não podia ter sido criada porque ela é ela própria. Mas se o senhor me diz: “Então, você acredita que há criatividade no mundo?” Como não hei-de acreditar? Está no próprio universo, na cor das asas das borboletas, na matemática que se vai inventando, naquilo que se sente na vida, em qualquer dessas coisas, Então você diz: “ Deus é a criatividade” Vamos a isso. Mas o Papa concordava com você? Ele não. Mas o que há é uma ultima instância da Igreja católica, que é o Papa ou o Concílio, o que vocês a quiserem nesse sentido. Cada coisa, quando se resolve fazer isto ou aquilo, tem que se chegar a todas as espécies de definições.
Bem então o próprio Cristo: Cristo é considerado na igreja, O filho de Deus. O que significa isto, ser filho de Deus? Claro que se há um Deus criador do mundo, no primeiro momento antes de ele criar o mundo esse Filho aconselha Deus a esconder que ele existia, portanto havia uma segunda personagem, que se pode dizer filho da primeira personagem e acusando o ouvir o divino em si mesmo o que dá perfeitamente a questão do Espírito Santo. Bem portanto, o difícil, não é ser católico, o difícil é não ser outras coisas também. Se eu disser assim: Você é dos Judeus?” “Sim.” Então acredita no Deus criador mas não em Cristo. Porque ai houve logo uma reivindicação. “Então e os deuses que tinham os gregos, que tal? “Muito bem, acredito; Sim. Naquele ideal de ter liberdade, nessa coisa toda.” Mas há uma coisa que eles nunca conseguiram: Foi verem-se livres das prisões de espaço e de tempo, que prendem o homem, que não deixam ser tão alto como eram os deuses, que eles imaginavam. Mas há alguma hipótese de ser, de chegar a isto? Talvez haja! E então sito Camões. Então sito Camões, onde? Na ilha dos amores e você diz: “Então quem é este, que sita a ilha dos amores?” Claro. O Camões disse: “ Enquanto se trata de cumprir uma empresa, todos nós temos de ser disciplinadíssimos” Senão como é que o Vasco da Gama chegava a Índia? Mas depois de cumprir a empresa, a nossa obrigação é sermos nós próprios.” Todos aqueles marinheiros que desembarcaram na ilha dos amores, eles já não são mais marinheiros, nem coisa nenhuma, eles são eles próprios! O que é que fazem na ilha? Isso é extremamente interessante. Eles primeiro livram-se do corpo, esquecem-se que têm corpo. Se alguém vos perguntar: “ Qual é a primeira coisa para uma pessoa se esquecer que tem corpo?” Bem, uma economia que satisfaça todas as necessidades, e depois uma ciência que ajude a superar a doença quando ela aparecer. Bem e o que é que acontece? Eles por exemplo livraram a cabeça de toda a espécie de pesadelos que o corpo cria e ficaram com a cabeça limpa, para escutar quem? A deusa. Quem é a deusa? É o nome que Camões dá a criatividade. A deusa fala aos portugueses e o que é que acontece? Acontece que ele conhecem o futuro e vêm-se livres do tempo, sabem o que acontece do outro lado do mundo, porque a deusa lhes mostra a máquina do mundo, lá ao longe e diz: “Estão fora do espaço.” Portanto livres de impostos, livres do tempo e do espaço, prontos a ouvir a deusa e a nascerem com a criatividade. E onde é que nós achamos a criatividade no mundo? Na arte, na ciência e na mística. Portanto, quando o homem pretende lançar-se à arte, à ciência e à mística ou à metafísica ou à filosofia, como vocês quiserem, o homem casou-se com a deusa. Então Camões foi o único a falar nisso? Não! O outro que falou nisso foi Vieira! E o jesuíta a par do aventureiro? E o jesuíta a par do aventureiro! Claro que as receitas que dá o Vieira, para a pessoa se livrar do corpo, não são as mesmas que deu o Camões. São a meditação de qualquer religião que a pessoa tenha, e mais, isto aquilo de preceitos e aquela coisa roda. Para ouvir a voz de quem? O Vieira não diz a deusa, diz Deus. Que também é criatividade. Portanto no século XIII, com Camões e com Vieira, uff, isto...E depois ainda com Pessoa, os portugueses recebem todo este conceito do estimulo da história, e estudando o programa dos descobrimentos é que havemos de fazer os descobrimentos do futuro: Como é que nós vamos caminhar, para estarmos com a nossa vida bastante livre e promovida por nós próprios, para podermos fazer a arte, fazer a ciência, fazer a mística, casando-nos com a criatividade. Vocês então perguntam: “ Excepcional, como é?” Pois até agora, só estivemos raciocinando, não estivemos fazendo poesia nem sonho. Simplesmente, estamos presos às coisas, que tem de se dar tempo a que o pão rebente, e primeiro devemos ter uma prática exactamente como temos o sonho, e toda a nossa vida deve ser o levar a prática a coincidir com o sonho, ou seja, fixar o horizonte tanto que se amplie esse mesmo horizonte.
Enfim, espero que voz agrade.

AA – Sim, bastante, obrigado. Já temos tudo gravado.


AS – Formidável, assim é que é.

(O meu obrigado à Joana que passou tudo para o computador).

Publicado por André Abrantes Amaral em abril 20, 2006 05:52 PM
Comentários

Notável!

Parabéns! Tiveste, na altura, o que é necessário para tocar no que muitos consideram inacessível.

E depois, ele era brilhante!

Abraço,
Miguel

Afixado por: miguel em abril 20, 2006 11:59 PM

Fascinante esta entrevista dada ao André pelo Prof. A. Silva! Realmente um privilégio - numa época em que André era apenas um adolescente, do 10º ano, porém cheio de curiosidade pelo saber, e com muita determinação em conseguir chegar muito mais além!
Esta entrevista foi, e é, uma grande lição de humildade, todavia repleta de sabedoria, que só pessoas nobres de carácter e despojadas, nos podem dar, como o Prof. Agostinho da Silva!
Parabéns e obrigado por a partilhar! Guarde-a como um tesouro... agora compreendo a sua admiração pelo Prof., e, em ter colocado aquela frase do próprio, no cabeçalho do Observador!
Cordiais saudações

Afixado por: Áurea em abril 21, 2006 02:17 PM

obrigada!!!

adorei!!!

já voltei de férias!!!

Fui a Irlanda, de Dublin até Kilmore Quay
Liverpool, Meols, Hoylake, Heswall, Chester (Inglaterra)
Matosinhos, Maia, Porto, Lisboa (Portugal duh...)

e finalmente

casa!!!

Afixado por: isabel em abril 22, 2006 08:39 PM

Excelente post, André!

Afixado por: LA em abril 27, 2006 03:19 PM

Obrigado a todos pelas simpáticas palavras.

Afixado por: André em abril 29, 2006 06:00 PM

Tão actual. Tão fascinante. Presos que estamos neste mundo opticocêntrico.

Afixado por: Nuno em março 25, 2007 04:34 AM

Miguel Martinez Devesa
Milagro 11-Valencia-46003-España
Sr.Andre Amaval, lo "admiro" por su conversación con"Agostinho da Silva".
dice cosas muy "buenas" y otras que "no" lo son.
Yom soy exmarinero y miro para el horizonte que tenemos ahora en "tierra".
Su propuesta de futuro: acabar con las "injusticias,las cadenas,la libertad y la lacra actual del desempleo" me parece "maravillosa
Igual que un "sueño" hay que fijar un "horizonte
y que ese "horizonte" se amplie, me parece correcto.
El ejemplo que pone , es el sueño de ser como el
"Sr Belmiro de Acevedo" el "hombre más rico de Portugal" por haber sido un hombre que nacio de familia "humilde" y llegar a tanta riqueza.
Me parece un ejemplo "bueno y malo" a la vez
El dice "Ordem dos Advogados" que inculca la "ley" a sus trabajadores que a su "conciencia"
"no" le permite las "injusticias ni los abusos de autoridad".
"creo que dice una cosa y hace otra"
Yo soy un ejemplo de sus "injusticias" parecida
a los ejemplos de los españoles en "America" .
Trabaje en "Tafisa" Valencia,más de 30 años:
El Sr Belmiro "ordeno" su "venta" "antes " que
"ordenara" mi "despido".
"Cobro" 120.000 euros por mi "despido".
"Ordeno y Mando" una persona para que "firmara"
mi "renuncia a 120.000 euros y mi despido"
"Cosa que consiguio"
Claro que para ello tuve que ser : "humillado,
chantageado,extorsionado, amenazado,engañado con trampas y mentiras".
Recurri a la justicia y no puede hacer nada porque "firme" ¿voluntario?
Recurri al Sr belmiro y ¿...?
Creo que el Sr. Agostinho de Silva "no" sabe esta faceta del Sr Belmiro de Azevedo , por eso lo pone como "Ejemplo" y sueño de muchos Portugueses.
Yo "no" lo considero un ejemplo.
Un saludo
Miguel Martinez Devesa

Afixado por: Miguel Martinez Devesa em dezembro 28, 2007 11:16 PM

Excelente André.
E obrigado por nos partilhares esta entrevista!

Eu sonho esse sonho também.
Sei que são os nossos descobrimentos futuros...

Que esse bom tempo de cada um ser o que já é se encontre conosco

Afixado por: Paulo em janeiro 6, 2009 11:05 PM
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