maio 10, 2006

Os cidadãos são quem mais ordena

O meu artigo publicado, na passada segunda-feira, na Revista Dia D do jornal O Público.

Cada vez que há um novo governo, ele inicia funções sugerindo uma nova mentalidade para os portugueses. Foi assim com Salazar que nos quis disciplinar, com Cavaco que sonhava acabar de vez com o estigma fatalista da derrota (lembram-se da euforia que foi a vitória do Mundial de futebol de juvenis em 1991?) e agora Sócrates que quer dar cabo do pessimismo. Todos surgem com uma ideia nova, todos saíram (e sairão) desiludidos com a imutabilidade genética do português. Nada disto teria interesse não fosse o caso de quem fica mal nesta triste história, não são os governantes, mas a massa popular que não se emenda.

A origem deste equívoco está no conceito que a grande maioria da nossa classe dirigente tem do Estado. É o Estado que educa, paga salários, assegura a reforma e, naturalmente, é a ele que caberá ‘puxar’ por nós, incentivar-nos e fazer surgir o ‘homem novo’. Caso não existisse o Estado que temos hoje viveríamos todos muito pior, a maioria seria analfabeta e os melhores empregos estariam entregues aos mais ricos, ficando os restantes com as sobras. Resumindo: O Estado livrou-nos de um grande drama e a ele devemos a vida que temos. O equívoco está, como se sabe, à vista de todos.

Falo de equívoco porque o Estado não nos deu nada do que se refere no parágrafo anterior. Todas as mais-valias ganhas nos últimos séculos se explicam, antes de mais, pelo esforço dos cidadãos e não do Estado. Ou seja, são as próprias características inatas dos indivíduos (que depois se unem, ou não, em associações) que permitiram o progresso e bem estar que temos hoje. A maior da parte das funções entretanto atribuídas ao Estado não são mais que um excesso de zelo de quem gosta de regulamentar a actividade humana. É deste excesso de regulamentação que advém a necessidade dos governantes nos transformar pois, estando estes convencidos que as mais – valias se encontram nos governos, é necessário persuadir quem vota que assim é. Apenas desta forma se consegue atribuir ao Estado mais funções, ditas sociais, e, claro está, mais poder.

Há que mudar esta forma de pensar. O que somos hoje, enquanto povo e país é fruto, essencialmente, do esforço individual dos muitos que se uniram quando foi preciso, mas que avançaram sozinhos quando foi imprescindível. É certo que tivemos bons governantes, mas a interrogação que nos assola quando se estuda a história de Portugal é esta: Como foi possível sobreviver? O sucesso de um país raramente se deve ao esforço hercúleo de um líder. É antes o resultado do trabalho diário de milhões de homens e mulheres. É fácil depositar a esperança num homem só, mas a realidade é outra.

Do que precisamos não é de planos, nem de planeamentos. Do estabelecimento de grandes objectivos e metas a alcançar. Os cidadãos, que são a essência de um país, necessitam de espaço. Para viver, trabalhar, pensar e inovar. Tudo o resto vem por acréscimo.

O grande inimigo do povo não é a sua mentalidade retrógrada que é preciso corrigir. O seu adversário maior é o governo e é este quem tem de mudar e de se limitar. No dia em que um político fizer tal coisa ele sairá vitorioso e nunca, como é costume, desiludido com o povo que governou.

Publicado por André Abrantes Amaral em maio 10, 2006 10:44 AM
Comentários

O Estado asfixia-nos, é certo. Hoje, embora poucos o reconheçam, as desigualdades sociais são maiores, muito maiores, do que no tempo da "ditadura". O nosso sistema fiscal é pesadíssimo, além de profundamente injusto e o Estado é um péssimo gestor da nossa casa.Importa, no entanto, clarificar a natureza e o âmbito do poder de regulação do Estado. Enquanto não definirmos, com precisão e sem tabus, o que deve ser a sua competência, não fugiremos deste marasmo...

Afixado por: paulo coutinho em maio 10, 2006 12:31 PM

O Estado asfixia-nos, é certo. Hoje, embora poucos o reconheçam, as desigualdades sociais são maiores, muito maiores, do que no tempo da "ditadura". O nosso sistema fiscal é pesadíssimo, além de profundamente injusto e o Estado é um péssimo gestor da nossa casa.Importa, no entanto, clarificar a natureza e o âmbito do poder de regulação do Estado. Enquanto não definirmos, com precisão e sem tabus, o que deve ser a sua competência, não fugiremos deste marasmo...

Afixado por: paulo coutinho em maio 10, 2006 12:31 PM

bom artigo andré.

Afixado por: Elise em maio 10, 2006 01:17 PM

a crítica ao estatismo mental português será pertinente. mas se é o Estado a causa de tamanhos males que faz aí a "imutabilidade genética" do português? Ou é o EStado o nosso progenitor, dotador de características genéticas? Não jogo com palavras, mas assim o argumento torna-se exemplo extremo do que procura criticar - o Estado-origem. Não jogo com palavras, custa-me esse "culturalismo", esse homogenizar do "português" (e do Estado).
cumprimentos

Afixado por: jpt em maio 10, 2006 02:32 PM

Depois do Cavaco a cantar o Grandola, nao esta mal...

Afixado por: Filipe Moura em maio 10, 2006 03:42 PM

JHa agora podias ter posto aqui a tua cara, como disseste que saiu no Publico (gostava de ter visto). Eu abri um precedente e pus a minha cara hoje no blogue.

Afixado por: Filipe Moura em maio 10, 2006 03:43 PM

Questão não parece rácica, ou será que li mal?, da imutabilidade genetica do portugues. A raiz é cultural, de habitos e costumes, espera-se, caír no regaço do estado assim que abandona-se o conforto paternal, e, paradoxalmente, as suspeitas a tudo a que cheire a estado.

Afixado por: M em maio 10, 2006 10:47 PM
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