
Recensão publicada na edição de Fevereiro 2008 da Revista Atlântico.
Qual seria a nossa reacção imediata se Adolfo Hitler aparecesse à porta da nossa sala? Levantar-nos-íamos? É a pergunta que Gervinus Rothling, antigo oficial alemão, faz à sua filha, já na década de setenta, quando se ouvem rumores que os israelitas capturaram o ditador alemão em plena selva amazónica. Será que nos levantávamos? A nossa reacção, a reacção de qualquer humano perante o horror, o ódio, o diabo em pessoa é a pergunta fulcral deste pequeno livro de George Steiner.
A obra deste professor de Literatura, datada de 1979 e republicada em português pela Gradiva, deu polémica na época. Um Hitler velho, muito velho, com mais de noventa anos, é apanhado na Amazónia, no meio da selva, da lama, dos insectos, num lugar quente, húmido, empestado de mosquitos, isolado do mundo, longe de tudo. Um Hitler que apenas espera morrer, que é encontrado, que é transportado para San Cristóbal, a terra mais próxima onde um avião o espera para o largar em Israel.
À medida que os rumores da captura se espalham, a dúvida do que fazer com o monstro surge nos meandros do poder das grandes potências. O assunto é uma pedra no sapato para os soviéticos que tinham garantido o óbito, delicado para franceses, norte-americanos e ingleses, preocupante para alemães e ansiosamente aguardado pelos israelitas. Quem se levanta? Ninguém sabe, mas todos se preparam, enquanto meia dúzia de judeus, embrenhados na selva até ao pescoço, transportam o fuhrer.
Transportam-no e também não sabem o que fazer com a presa. Duvidam, não o olham, com medo de ver nele, não o diabo, mas alguém. ‘O cheiro de um homem pode partir o coração’ (p.54). Contêm-se. Fecham os olhos, concentram-se na missão até que o peso do mundo, do mundo real (p. 202), se abate sobre eles e eles vacilam, decidindo julgar Hilter ali, no meio da selva. Ouvi-lo.
É quando um escritor judeu decide dar voz ao velho déspota que começa a polémica. Vocês não são a consciência dos homens, Judeus. Vocês são a sua má consciência (pág. 215); Fui beber as minhas doutrinas a vocês (p. 219); Quem, então, foi o maior destruidor, quem possuiu uma avidez de sangue mais implacável? Estaline ou eu? (pág. 217). Porquê dar voz ao tirano? O que explica esta afronta do autor?
Porque ‘O mundo em geral foi cúmplice instrumental da “Solução Final”, explica-se Steiner, no posfácio datado de 1999 e publicado nesta edição (p. 223). O Holocausto não foi obra de um só, mas de muitos, pois apenas dessa forma o extermínio foi possível. Esta obra ‘é uma parábola sobre a dor’ (p. 226). A dor que advém da maldade humana. A dor de quem se recorda que o mal foi criado, não por um monstro, mas por homens.
O Transporte para San Cristobal de A.H., por George Steiner.
Gradiva, 2007, pp. 226.
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Afixado por: links.pt em março 19, 2008 12:42 PM"Um livro de dor..."
Uma obra ficcionada de George Steiner que nos faz reflectir sobre um passado tenebroso (2ª guerra mundial e os seus intervenientes - certos Países e seus Líderes) cujas consequências - O Holocausto, entre outras - deixaram marcas profundas e indeléveis na Humanidade. Hitler neste contexto não é só o mentor diabólico, mas um peão, entre outros de menor escala - talvez -, para levar a cabo enormes atrocidades. Aliás, a História está repleta de casos em que a maldade humana se revela de uma forma horripilante, para com o próximo, apenas pelo Poder e seus interesses, outras somente por enorme perfídia. O Homem tem dois lados - o luminoso e o obscuro, porém, o mal é quando o lado obscuro se sobrepõe ao luminoso.
O ódio, o rancor e a vingança não nos levam a sítio algum, embora não devamos esquecer os terríveis e trágicos acontecimentos, mas apenas para homenagear as vítimas, punir quando for caso disso os vilões e, principalmente aprendermos com os erros do passado, para não se tornarem a repetir.
André,
Aproveito a ocasião para lhe desejar uma Páscoa rica de espiritualidade, de bons sabores, odores florais, muita luminosidade e sorrisos junto da família e amigos.
Afixado por: Áurea em março 20, 2008 02:31 PMDistribuir a "culpa" torna-a diluida....sem ninguem realmente responsavel....muito conveniente a um povo que assumindo a culpa se autodesculpa de imediato.