O discurso proferido por Cavaco Silva nas comemorações do 25 de Abril, preocupado e entristecido com a ignorância da juventude e o seu afastamento relativamente à política, é bem demonstrativo da angustia que atinge a geração que fez o 25 de Abril. Uma geração angustiada com a crise actual que não é mais que a crise do Estado social.
A geração do 25 Abril pretendeu, na década de 70, aplicar um modelo que tinha sido levado a cabo na Europa nos anos 50/60. Pior: Depois da crise petrolífera de 1973, que destruiu os alicerces do forte crescimento económico europeu do pós-guerra. Este atraso obrigou que o país estivesse sempre numa corrida contra o relógio. Se nos anos 70/80 éramos todos socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos (a explicação da pouca diferença entre estas correntes merece um texto diferenciado), os ventos que sopravam dos EUA e do Reino Unido eram bem mais liberais (ou conservadores, se preferirem). É de bom tom, recordar que a culpa do atraso não se deve a quem fez as reformas posteriores a ’74, mas à ditadura salazarista. Independentemente tudo isso, não deixou de ser um atraso significativo que ainda nos marca.
É assim que o regime que saiu do 25 de Abril é hoje um regime triste, que nos deixa uma herança pesada: Uma constituição socialista e um Estado omnipresente. Omnipresente na lei do arrendamento urbano; na lei laboral; numa conhecida lei do tabaco, que interfere no direito de propriedade; na banca, sendo dono da Caixa Geral de Depósitos; detendo o capital de imensas empresas, como sejam a CP, a ANA, a Carris e a RTP. Mais grave que tudo, um Estado que acredita ser a obra pública o motor da economia, quando a obra pública desenfreada só leva à desigualdade e cria inflação, que é um imposto e, por nunca ser igual nos produtos e variar de lugar para lugar, cria ainda mais desigualdade.
Não deixa de ser irónico que a geração do 25 de Abril, que lutou contra o Estado autoritário, nos esteja a esmagar com um Estado pesado. Tão pesado que uma grande parcela da nossa vida, do tempo dispendido no nosso trabalho seja para o pagar e não para levarmos dinheiro para casa. Na verdade, hoje não temos um Estado autoritário. Temos um Estado esmagador. Um Estado, também ele, e à sua maneira, presente ao virar de cada esquina.
O problema não é que se ignore o 25 de Abril. É a desilusão, o facto de a maioria da população não se rever no regime que saiu daquele dia em 1974. Mais do que agradecidas com os homens pomposos que discursaram no Parlamento, as pessoas estão preocupadas. É este problema, este problema muito concreto que é grave e merece solução atempada.
Publicado por André Abrantes Amaral em maio 5, 2008 11:21 AM | TrackBack