maio 19, 2008

Sócrates na Venezuela, mais o petróleo e o Atlântico Sul

A subida do preço do petróleo está a provocar duros golpes na economia, mas vai ter ainda maiores repercussões a nível geoestratégico. Se a maior procura e menor oferta tem feito subir o seu preço, será essa mesma subida que vai permitir (já está a permitir) a extracção do ouro negro em poços cuja exploração até há uns anos não seriam rentáveis. Poços novos, em locais novos, de novas potências. É o caso da China e do Brasil, que têm feito (ou têm permitido fazer) investimentos essenciais ao desenvolvimento tecnológico dos meios de extracção. Mas também da Venezuela que, apesar de estagnada no desenvolvimento dessas novas formas de extracção, tem imenso petróleo para vender.

É aqui que a visita de Sócrates à Venezuela foi indispensável. Somos um país pequeno no canto de um continente aflito com falta de energia. Um continente demasiado virado para leste, demasiado dependente daquilo que foram as consequências do fim da Guerra Fria e que receberá de olhos abertos qualquer abertura a novos mercados. Principalmente a abertura ao Atlântico Sul.

Em Janeiro de 2007 foi publicado um artigo meu na Revista Atlântico, intitulado ‘O Novo Atlântico’ e que consistia numa análise crítica de um ensaio do Coronel Ralph Peters publicado na revista Parameters no Outono de 2003, com o nome de ‘The Atlantic Century’. O que aí se defendia era a necessidade de a Europa e os EUA se virarem para a América do Sul e para África. Virarem-se para países daqueles dois continentes que precisam de toda a colaboração no seu esforço para largar a pobreza. Países com forte influência ocidental, que não quererão concorrer com o Ocidente, mas fazer parte dele. Desejosos por pertencer a uma grande comunidade atlântica que pode ser uma oportunidade única, um meio ímpar, de a Europa e os EUA terem forças para o embate (económico, mas também civilizacional) com o Oriente.

Um virar de página para o qual Portugal só pode desempenhar um papel indispensável, devido às suas ligações com o Brasil, Angola, Cabo Verde e também a Venezuela. Um virar de página que nos deve obrigar a ter as vistas mais largas que os meros amuos com Chavez. Amuos não permitidos num país como Portugal, principalmente quando lida com a sua esfera de influência.

Publicado por André Abrantes Amaral em maio 19, 2008 12:26 PM | TrackBack
Comentários

Não será que já vamos um pouco tarde no caso de Africa?

Daily Telegraph:

Why China is trying to colonise Africa

By David Blair
Last Updated: 12:01am BST 31/08/2007

...
Reliable information on Beijing's African adventure is hard to come by. But we do know that trade between China and the world's poorest continent totalled about £30 billion last year - a sixfold increase since 2000.
China now buys about one third of its oil from Africa, mainly from Angola, where an £800 million deal to develop a new field was signed last May, and from Sudan, where Beijing built a 900-mile pipeline and invested at least £8 billion. China is spending another £1.2 billion on a new offshore oilfield in Nigeria.
Meanwhile, Beijing has acquired mines in Zambia, textile factories in Lesotho, railways in Uganda, timber in the Central African Republic and retail developments in almost every capital.
...
Thanks to Beijing's interest in Sudan's oil, President Omar al-Bashir's regime in Khartoum has received a windfall. Ten years ago, Sudan's oil revenues were negligible; last year, Chinese investment ensured that they totalled at least £3 billion.

Afixado por: tg em maio 22, 2008 05:53 AM
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